
GELÉIA GERAL
Globarbarização
A música e a arte "penetrável" de Tom Zé
Ilmiglior Fabbro
Não, você ainda não precisa ir a um museu para saber o que é um artista. Pode acreditar, ainda existem artistas na chamada música popular brasileira. Popular, pero no mucho, desafortunadamente. Ainda existe Tom Zé, espécime raro. Um autêntico artista, na pura acepção da palavra.
Você já percebeu quão difícil é encontrar um alfaiate nas ruas das grandes cidades? A indústria de confecções tomou conta do mercado com sua praticidade e uniformização industriais. O lance agora é ser uniforme, é vender uniforme.
Quando ouço e vejo a arte de Tom Zé, sinto saudade do tempo dos alfaiates. Sinto saudade do tempo dos artesãos. Saudade do tempo em que ainda existia o trabalho meticuloso, dedicado e paciente do artista.
IV Festival da TV Record - 1968 - 1o. lugar: "São São Paulo, meu amor"

Em tempos de indústrias – a cultural é apenas mais uma delas – parece não haver muito lugar para o talento, para a delicadeza, para a carpintaria. Em tempos de culto ao deus "mercado", à sociedade de massa e à globalização, tudo é mercadoria. E o artista de hoje tornou-se uma espécie de mercador, que perdeu a alma em meio às engrenagens da indústria em troca dum instantâneo de fama, em troca do vil metal.
Talvez devido ao embrutecimento das almas e das pessoas, talvez como uma conseqüência da massificação e da produção e venda em larga escala, característica da indústria, a autêntica arte tornou-se "mercadoria" rara, tornou-se especiaria. Biscoito fino. Aroma e essência raros. Coisa para os que estão alheios a tanta pressa e utilitarismo.
Tom Zé não tem pressa, ele é o "pai da invenção" (como já dizia a manchete da revista Roling Stones em 1998). Tom Zé é um erudito. É diverso, vário. E é essa diversidade de signos que desfila diante de nossos sentidos quando ele está no palco.
Tom Zé tem a coragem de caminhar com a mais perfeita e tranqüila desenvoltura sobre o fio tênue que separa a arte da insânia. Nele, encontramos os sinais da arte louca de Artur Bispo do Rosário e Stela do Patrocínio, a santa medicina de Nise da Silveira e a palavra-ungüento de Torquato. A cura pela arte. As almas estão enfermas.
Elaboração, erudição, trocadilhos, invenção, intertextualidade, experimentação, liberdade, poesia concreta, teatro, pantomima, parangolés, penetráveis, o som da roça, o som da cidade, o moderno, o antigo etc. Esses são alguns ingredientes detectáveis nessa instigante alquimia que é a tessitura de Tom Zé. Tom Zé faz arte.

Um pouco graças a um providencial mecenas chamado David Byrne e em muito graças à persistência da alma sertaneja, Tom Zé resistiu à seca, ao ostracismo e à árida mediocridade do cenário musical brasileiro e por pouco não foi trabalhar no posto de combustível de um parente, lá pelas bandas de Irará, sua terra natal. Já imaginaram a cena: o inventivo artista trabalhando como frentista num posto de gasolina? Ainda bem que o destino não "aprontou" tão cruel comédia de erros. Mas o músico segue como "frentista" da MPB. Avant garde! Ave, "Tam Zi"!
Arte hermética? Não, é apenas arte-invenção. Ou não? Tom Zé não "faz gênero", cria gêneros musicais. No seu mais recente CD "Jogos de Armar" tem xote, tem baião (homenagem a Gonzagão), tem samba-enredo, mas tem também "chameguinho-choro", "maracapoeira" e "bloco de turistas europeus para o cordão das meninas do Nordeste" (uma contundente e impiedosa crítica social à tal globarbarização).
Tom Zé é acima de tudo um fingidor confesso, um ator que interpreta o papel de músico e cantor. Finge tão bem que todo o mundo acredita. Ou será ele uma espécie de poeta da música, que "finge tão completamente/ que chega a fingir que é dor/ a dor que deveras sente"? Mas Tom Zé também nos é benevolente, oculta-nos a sua dor, pois sua arte parece muito mais um manifesto de pura alegria e genialidade do que a purgação da alma. A dor se esgueira nas entrelinhas de sua música, nos jogos de armar ou na "ludolibertina" e libertadora música desse cidadão-menino de Irará, e do mundo (jornalistas americanos e franceses, recentemente, "se deram ao trabalho" de vir até o Brasil entrevistá-lo).
Talvez, levando às últimas conseqüências o dito popular "antes só do que mal acompanhado", Tom Zé segue uma trajetória própria e única, à margem das “más” companhias de alguns de seus antigos “parceiros” do Tropicalismo, que se venderam ao mercado e exibem sua arte bolorenta e sua fake felicidade burguesa no mundinho de Caras. Caras e bocas.
A clássica foto da troupe tropicalista, com Rogério Duprat solenemente segurando um penico, é “apenas um retrato na parede, mas como dói”. Tom Zé está lá, ao lado dos Mutantes e outros mutantes, ar moleque com uma valise na mão, pronto para empreender sua viagem “pessoal e intransferível”. Panis et circensis. O engenho e a arte tropicalistas ainda sobrevivem na obra de Tom Zé.
"Tá tudo registrado em cartório de notas!". O músico pede no show, transitando entre a galhofa e o cinismo, o testemunho e o registro dos jornalistas presentes. Já está cansado de ver o seu talento ser "privatizado" pelos carbonários de plantão e arremata candidamente: "Tô cansado de ver minhas idéias gozando no palco dos outros".
Tom Zé é o verdadeiro alquimista, é o pai da invenção. Guerreiro solitário desses tristes trópicos, imortal arauto da imortal Tropicália. Ouçamos com atenção o que ele tem a nos dizer. Deixe a arte penetrar em você. Penetre-a e sinta-a roçar suave os seus sentidos. A música desse menino de Irará às vezes parece soar como estranha canção, por vezes como uma espécie de oração, outras vezes como a mais perfeita trilha sonora do caos. Isso tudo é Tom Zé.
Alguns títulos:
1. Todos os olhos – 1973 (Continental)
2. The best of Tom Zé – 1990 (Luaka Bop e Warner)
3. The hips of tradition – 1992 (Luaka Bop e Warner)
4. Com defeito de fabricação – 1998 (Luaka Bop /Wea) e 1999 (Trama)
5. No jardim da política – 1998 (TZ)
6. Jogos de armar – 2000 (Trama)
Consulte a discografia completa no site www.tomze.com.br
Esta coluna é uma homenagem a Torquato Neto que, no início da década de setenta, publicava a Geléia Geral de seus dias. Aguarde, em 19 de agosto: 31 anos de Geléia Geral!
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