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'Não podemos perder Tom Zé'

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'Não podemos perder Tom Zé'

Gerald Thomas conta como conseguiu conhecer seu ídolo, que toca amanhã no Rio

Gerald Thomas - Especial para o JB - Divulgação

Tom Zé se apresenta amanhã, às 20h, e sábado, às 20h30, no Teatro da Uerj

Esses últimos três dias no Brasil não pertencem a este século. Com a vitória do Lula e a entrada dePaulo Coelho na Academia Brasileira de Letras, este país passa a ser a prova mais evidente de que a revolução é possível e que o modernismo faz mais uma de suas iluminadas manifestações. Não bastassem esses dois eventos emocionantes, me deparo - no mesmo hotel - com Tom Zé. Não, não é tão simples. Vou tentar explicar.

Tom Zé faz parte da minha vida inteira. Meu fascínio por ele é doentio. A simplicidade e total sofisticação de sua música sempre me lembraram aquelas figuras que aparecem (e desaparecem) nos quadros de Bosch ou de Bruegel e cujo impacto é algo misterioso, que nenhum Michel Foucault conseguiria explicar. Tom Zé vê e não vê o ''objeto musical'', assim como Arthur Bispo do Rosário não reconhecia o planeta Terra como sendo uma esfera. Seus sons parecem sugados dos instrumentos musicais por uma espécie de buraco, um furo, um rasgo criado de propósito para denunciar o defeito daquilo que costumamos achar belo. E, como se fosse uma encenação teatral, sua filosofia e sua virtuose musical transformam esse conceito de beleza em algo sublime. Mas é estranho que ele parece não querer que o vejamos. Tom Zé aparece pelos canos de escape ou por rachaduras, como as rachaduras de Duchamp.

Sua voz parece ser uma porta dos fundos de um palacete barroco e sua genialidade reside justamente no fato de ele ser um intelectual intuitivo, alguém que pratica (com controle absoluto) a legenda e a sublegenda das coisas, dos objetos, da vida, da poesia e sua arte é a soma de todos os nossos desejos.

David Byrne entendeu isso e fez Tom Zé explodir no primeiro mundo. Mais uma vez ele aparecia e mais uma vez ele me emocionava, quando eu colocava sua música no volume mais alto do meu CD player.

Bem, mas isso já faz algum tempo. O fato é que, ao dar entrada no hotel há uma semana, o André, da recepção, me disse (em tom de sussurro) que, naquele exato momento do meu check in, o Tom Zé estava ''lá embaixo'' fazendo um show.

''Como assim, André? O Tom Zé está tocando no teatro do hotel?'', perguntei, aflito. ''Está, mas esse é o último show e já está terminando.'' André deve ter visto na minha cara a expressão de um diabo frustrado. ''Como assim, André? Eu perdi o Tom Zé mais uma vez na minha vida?'' Subi pro quarto, sentei na cama e comecei a redigir uma carta pra esse ser misterioso cuja genialidade transparente me persegue a vida inteira e que se torna sempre invisível quando quero vê-lo.

Empurrei a minha carta por debaixo da porta de seu quarto, mas jamais esperei ter uma resposta. Horas depois, recebo um recado de volta e, finalmente, depois de algumas décadas de espera, nos encontramos. E desde esse momento, não nos desgrudamos. Ele bate na minha porta e eu na dele várias vezes por dia. Tomamos café da manhã e, agora, encontrá-lo parece ser a coisa mais normal do mundo. É como se nunca tivesse sido diferente.

É estranho tudo isso. Entre o discurso do Lula e o do Paulo Coelho, parece que me encontro numa espécie de delírio maravilhoso e, bem no meio, está a figura nordestina minguada e flaminga de Tom Zé.

Como assim? Eu também não entendo, mas em questão de três dias já trocamos todas as espécies de intimidades, ele, eu e Neusa, sua mulher. Viramos uma pequena família. Entrevistei-o pra TV Uol, e ele compartilha da minha vida mais íntima. Fui pro quarto dele mostrar a gravata que eu havia comprado pra ir na ABL me comover (como poucas vezes na vida).

Contando assim parece trivial, mas aqui dentro do meu coração isso significa uma pequena revolução. Faz parte deste novo Brasil, cujas luzes se acenderam e começam a revelar mistérios dessa identidade cultural tropical maravilhosa e orgulhosa de seu poder.

Há alguns meses, acho que tudo isso não teria sido possível. Eu nunca teria tido a coragem de tocar na mão de Tom Zé pessoalmente. Era um dos meus poucos ídolos que nunca tive coragem de perseguir.

No avião, vindo pro Brasil há uma semana, vi na telinha um programa sobre o Grupo Corpo e, de repente, aparece o Tom Zé sendo entrevistado. Fiquei enlouquecido procurando o fone de ouvido. Mas no momento em que consegui achar aquele pluguinho na braçadeira da poltrona, Tom Zé já havia desaparecido da tela. Caramba! Que sina!

Mas todo esse acaso tem um fim, um propósito. Tom Zé se apresenta no teatro da Uerj amanhã e no sábado. Dessa vez não haverá força nesse planeta que me faça perder o show. Vou me precaver e ir no mesmo carro que ele. Não, dessa vez ele não vai desaparecer. Dessa vez e nunca mais. E na Uerj, depois de ter me tornado íntimo do homem, vou vê-lo ao vivo pela primeira vez. Pra mim, como pra muitos de vocês, esse show vai ser algo extraordinário. Não podemos perdê-lo. Não podemos perder o Tom Zé.

 

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