JOTABÊ MEDEIROS - Jornal O Estado de São Paulo - Caderno 2 - 10/11/2003
Cantando a capela ou num samba-sapatilha, ele é umdos maiores cronistas da patuléia
Lá vem Tom Zé, o fabuloso homem sanduíche, emparedado por manchetes esquizofrênicas de páginas de jornais, mostrar a sua arte comentarística, a sua arte feita de restos de mesa- redonda-de-futebol-debate e “barnews” da CNN.
Imprensa Cantada (Trama), o novo disco de Tom Zé, é um ready-made de sobras de manchetes, uma chuva de confetes ao estilo gilete-press, compilação de canções que ele já tinha e não gravava por esse ou aquele motivo (ou que não adicionara ainda ao próprio repertório). A inclinação de Tom Zé para a reciclagem é notória. Ele viu a vaia que João Gilberto levou no Credicard Hall e fez uma música, Vaia de Bêbado não Vale, que é, ao mesmo tempo, a revisão musical do fenômeno da bossa e um flash-back de sua “declaração de princípios”, de 1958. Tom Zé viu o início da confusão no Iraque e fez Companheiro Bush. Passou pela Avenida Sumaré voltando para casa em Perdizes e viu os outdoors do Grande Prêmio Brasil de Fórmula-1 (na verdade, ele conta que foi o pessoal da sala de imprensa que sugeriu...). Não teve dúvida: fez Interlagos F-1. Baiano com aquela conhecida inclinação para a incontinência verbal, Tom Zé assunta de tudo. E para tudo tem uma tirada espirituosa, um comentário inteligente. Seus discos e seus shows são recheados dessa ironia, às vezes sarcasmo (como o hilariante coro para os Filhos de Beckett, emBate Boca). Sua militância consiste em evidenciar nosso ridículo, e nisso é um mestre. Como o disco é uma espécie de coletânea extemporânea, ele mistura manifestos (caso de Requerimento à Censura e Identificação) com outras faixas de natureza comportamental, como Desenrock-se. Musicalmente, ele vai da versão capela de Dona Divergência ao samba-sapatilha de Bate Boca, feita para o balé Santagustín, do Grupo Corpo. Ídolo universitário no início, Tom Zé ressurge para o público inteiro agora, aos 67 anos, readquirindo sentido e entusiasmo. Está tinindo. Há uma divertida parceria vocal com Jairzinho Oliveira em Sem Saia, Sem Cera, Censura (“A parceria da bala de canhão com a bolinha de sabão”, cantam eles). Na regravação de São São Paulo (“São vinte milhões de habitantes/ Aglomerada solidão/ Por mil chaminés e carros/ Gaseados a prestação”) ou subvertendo Cole Porter, em Você é o Mel, com letra de Augusto de Campos (“Sou um boy de banco/ Um cheque em branco/ Um réu/ Mas, meu bem, se eu sou o fel/ Você é o mel”), Tom Zé é hoje o maior cronista da patuléia. Ele nos redime e nos resume.
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