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Dez livros, sombra e água fresca

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Dez livros, sombra e água fresca

OSCAR PILAGALLO - especial para a Folha de S.Paulo

Música: Silêncio, cantor frustrado trabalhando

Tropicalista Lenta Luta (Tom Zé, Publifolha, 287 págs., R$ 39)Tom Zé escreve, e compõe, como quem não quer nada. Mas não se engane. A naturalidade da prosa, e da música, é construída. No livro, como nos discos, o improviso resulta de exaustivo treino. Nesse registro, informal e rigoroso, o "bode inspiratório", como se define, ganha o leitor de "Tropicalista Lenta Luta", a quem brinda com bem-humorada aula de arte e vida.

As duas coisas se misturam: a música de Tom Zé nasce da deficiência. A "des-canção" que o projetou mundialmente é um drible em sua incapacidade de cantar como cantor. "Quem não sabe fazer certo, você há de imaginar, fica trabalhando no limite." Como transformar restrição em singularidade, eis a essência do depoimento.

Ao contrário de Caetano Veloso, que vestiu o chapéu de ensaísta em "Verdade Tropical", Tom Zé escreve como artista. Não é objetivo e faz com que o leitor não sinta falta da objetividade. Sua abordagem das funções harmônicas, para ficar num único exemplo, é tão original quanto didática. "O Romance Tonal, assim como a trama de qualquer novela, se faz com uma situação de tensão e repouso", começa. E só termina, depois de, com metáforas de paixões e traições, explicar os conceitos de tônica, subdominante e dominante.

O relato autobiográfico de Tom Zé, permeado por uma erudição discreta de quem não quer se exibir, é também uma história da Tropicália da perspectiva de quem, estando dentro, preferiu ver de fora.

Frase: "Para compor, escolhia temas numa hierarquia que privilegiava inicialmente o humor, depois os paradoxos sociais. E um natural engajamento, já que eu nunca morei em Marte. No que se refere à música de protesto, considero-a uma trava no pensamento. É o método jesuítico, acrescentado do que o prof. Paulo Freire chama de hospedar o opressor."

"Por uma atração misteriosa, na profunda timidez mora a radical impudicícia."

Fique sabendo:

Foi do poeta Décio Pignatari a idéia de colocar a famosa foto de um ânus com uma bola de gude na capa do disco "Todos os Olhos", de 1973. Por causa da censura, Tom Zé achou aquilo "muito perigoso"

Koellreuter, guru da vanguarda e professor de Tom Zé, só aceitou dar aula na Bahia com a liberdade de ignorar o currículo do Ministério da Educação.

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Oscar Pilagallo, 48, é jornalista e autor de "A Aventura do Dinheiro", "O Brasil em Sobressalto" e "A História do Brasil no Século 20" (todos da Publifolha). É também prevenido: nunca sai em férias sem uma maleta de livros.

 

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