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Tom Zé – Som de Lobo

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9 de Maio 2004

Tom Zé – Som de Lobo

Judith Hyams

Tradução de Maria de Lourdes Soares

Tom Zé canta canções de grande impacto no teatro Volksbühne

 

Sexta-feira à noite. Em geral os brasileiros adoram cantar a lua. Em vez de celebrá-la, Tom Zé prefere urrar para ela. Canta a sua canção à lua cheia sacudindo para o público com tanta determinação os braços magros que este acaba por acompanhá-lo. No meio do público presente, certos trintões vestindo Adidas e óculos de armação escura talvez não estejam aqui por acaso: podem ter visto “Telefavela” de René Pollesch, com trilha sonora de Tom Zé.

Diferentemente dos velhos companheiros do Tropicalismo, Caetano Veloso ou Gilberto Gil -- o primeiro, o intérprete mais famoso do Brasil e o segundo, ocupando atualmente o cargo de Ministro da Cultura --, Tom Zé, com seus 67 anos de idade, não quer saber de nenhum tipo de acomodação estética e criativa. Embora às vezes incorpore batidas eletrônicas à música de sua Bahia natal, isso não o aproxima dos sons brasileiros-clube que invadem o mercado. E quando na guitarra explode um “Smoke on the water” retumbante, ao qual se sobrepõe o refrão de “Hey Jude”, o resultado é um forró frenético com toques orientais – talvez o ouvinte não entenda bem, mas sente-se feliz com um excesso que ultrapassa expectativas. Tom Zé também compartilha essa alegria. Ele ama o seu público e adora brincar com ele.

No princípio anunciou, num inglês estropiado, o “Hino da Guerra”, e o hino nacional dos EUA ressoou com força. Ele e seu violão assumiram uma postura militar ( pouco antes transformara o instrumento em amante e a posição fora outra, bem diferente). Em seguida canta algo em ritmo de reggae sobre “Bush”, o público vibra, todos cantam juntos, mesmo sem entender a língua. Mais tarde, Tom Zé canta uma canção [“Brigitte Bardot”] com tradução simultânea de um jovem louro. Por entre os jogos de palavras entende-se com clareza a palavra “sozinha”.

Tom Zé é visto como um eterno agitador e vanguardista. Antes de tudo, ele é um pícaro. Com sua voz maravilhosa canta também as condições de vida nas favelas, depois oferece os seus CDs, como um cantor numa loja burguesa. Distribui ao público, como souvenirs, as caixinhas de fósforo que marcaram o ritmo de uma canção. Ele próprio percute tudo que o rodeia, incluindo o próprio corpo e a cabeça dos músicos da banda, a fim de avivar os ritmos secos e sincopados do Nordeste brasileiro. Pega vários jornais e, com a leitura rápida dos títulos em voz alta, cria sons que remetem ao Monty Python e depois a um carnaval tropical. Tom Zé declarou certa vez que o ritmo é a espinha dorsal da música. Assim, seu canto soa bem sincopado, como que impulsionado mais pelo conteúdo [da canção] do que pela atmosfera da melodia, e isso supera a barreira da língua. O melhor de tudo nesse excêntrico desgrenhado é ver como choca o público sem irritá-lo, como o enfeitiça sem adulá-lo. No final ele canta a lua como um lobo uivando, e o público o imita. Hoje à noite todos deixarão o teatro como lobos, sem pele de carneiro.

 

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