Estudando a Bossa
Nordeste Plaza
(Biscoito Fino, nov 2008)
Estudando Tom Zé
A carreira de Tom Zé teve início nos loucos anos 60, época em que colocar um “disco na vitrola”, ligar um rádio ou TV, era motivo de surpresa, de beleza nova, provocadora. Em todos os países do mundo a criatividade transbordava pelos meios de comunicação e o público consumidor queria sempre mais, seja na área da MPB, do rock, do jazz ou da música de concerto.
Dizer que Tom Zé “participou” daquele momento histórico, é injusto. Ele foi, isto sim, um dos principais responsáveis na época pelo que houve de mais revolucionário e talentoso em nossa música. E, por um acidental e saudável contato com um grande músico norte-americano, seu trabalho espalhou-se com facilidade mundo afora, provando que não se tratava de “gracinhas” de um baiano perdido no caos paulista, mas de obra de expressivo estofo universal.
De lá para cá, não só no Brasil, mas na maior parte do mundo tido como civilizado, muita coisa mudou. Parece que o deslumbrante progresso da máquina de comunicação eletrônica agiu como inimigo da criatividade musical. Quanto mais iPods, piores são os repertórios consumidos. Mesmo grandes artistas brasileiros, que participaram com grande intensidade daqueles excitantes anos 60, ou se retiraram ou passaram a fazer uma música, às vezes bela, mas sem maiores propostas.
Este não é o caso de Tom Zé. Sua inquietante mente centrífuga e centrípeta nos revela novas idéias sonoras, comportamentais, artísticas a cada ação sua, seja num palco, num disco ou num pronunciamento. Aquela irreverência típica do Tropicalismo que lhe deu origem, está presente hoje em seu comportamento cultural mais que nunca.
Mais uma surpresa Tom Zé nos oferece agora com seu CD Estudando a Bossa para a Biscoitofino, verdadeiro QG da música inteligente e criativa brasileira atual. Nesta época em que as pessoas contemplam e praticam a Bossa Nova, quase como um refúgio espiritual saudosista de algo criado há 50 anos atrás, pleno de melodias, graça, beleza, talento, descontração, otimismo, charme, refinamento, qualidade musical, provocação, autenticidade etc, etc, ele nos revela a mais original leitura daquele momento artístico, a partir de uma ótica bem humorada, verdadeira crônica de um passado inesquecível, com vistas para futuro.
Tudo que serviu de matéria prima da Bossa Nova está deliciosa e anarquicamente presente em seus versos, atuações vocais, arranjos, toques de violão, maneirismos, dialetos, sotaques, expressões; do nome dos participantes, às palavras chaves (barquinho, sol e sal, chega de saudade, bada-badi, bada-badá, biom-bom), da citação às musas femininas a componentes essenciais, como a síncopa ou Copacabana, do panorama sonoro da época, com o samba-canção abolerado, trágico, do ninguem-me-ama/ninguém-me-quer, às polemicas despertadas pela implantação do novo gênero musical e assim por diante.
Esse verdadeiro documentário sonoro, bem século XXI, de um espaço musical inesquecível e imorredouro de nossa alma, vai certamente nos levar a estudar Tom Zé mais uma vez, como ele estudou para nós, à sua moda, a Bossa Nova.
Maestro Júlio Medaglia
LETRAS
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0. Introdução: BRAZIL, CAPITAL BUENOS AIRES 0m20s Autor: Tom Zé Intérpretes: Fernanda Takai/Tom Zé Editora: Irará
1. RIO ARREPIO (BADÁ-BADI) 2m45s BRPUI0800288 Autor: Tom Zé / Arnaldo Antunes Intérpretes: Guilherme Kastrup: percussão; Daniel Maia: violão, baixo, cavaquinho e guitarra; Cristina Carneiro: teclados; Íris Salvagnini, Luanda Jarbas Mariz e Daniel Maia: backing vocal; Tom Zé e Mariana Aydar (gentilmente cedida pela UNIVERSAL): vozes Editoras: Irará / Rosa Celeste
badá-badi badá báTom batiquitum (bis) badá badia dirá que o Rio copacabanamente um arrepio badá badia dirá vá botar o credi-cartório para se tostar, tá? badá-badi badá báTom
batiquitum (bis) badá bá-dia de sol fogaréu para Ipanema parecer um céu badá-badia no peito do Tom
Arpoador ter que deixar o Leblon
Ainda não me refiz de ter perdido a Elis
Maysa, Dolores, Leila Diniz
Por isso na Lapa boêmia se diz
que na canção do País nunca a tristeza foi tão feliz badá-badi, etc.. sob a janela Jobim passa um desfile sem fim Brigitte, Lollô, Marilu, Marilyn que podem mostrar o pudim pra masturbar o Pasquim ou Roberto levar na Playboy pra mim badá-badi, etc..
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2. BARQUINHO HERÓI 02m45s BRPUI080028B Autores: Tom Zé / Arnaldo Antunes Intérpretes: Guilherme Kastrup: percussão; Arthur Nestrovski: violão (participação especial); Daniel Maia: baixo; Iris Salvagnini, Luanda, Jarbas Mari. e Daniel Maia: backing vocal; Tom Zé e Mônica Salmaso: vozes Editoras: Irará / Rosa Celeste
Beira do mar Beira-mar obalalá beira-mar balagandá laid oh, Senhor do Bonfim no Bonocô vem Alá vai-não-vou sim memória emoriô cuidar de mim
Quando o barquinho me disse adeus, ai Deus, Ao longe, lá no sem-fim e na Guanabara foi construir, enfim só, um só, a ponte Rio-Niterói — ai de mim, suave cantar passou primeiro no Bonfim e com o fio da voz puxa do mar pra cantar, um navio pra cantar. pra Francisco navegar Beira do mar ......... etc.
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3. JOÃO NOS TRIBUNAIS 02m48s BRPUI0800289 Autor: Tom Zé Intérpretes: Daniel Maia: violão; Tom Zé: voz. Editora: Irará
Se João Gilberto
tivesse um processo aberto e fosse nos tribunais cobrar direitos autorais de todo o samba-canção que com a sua gravação passou a ser bossa nova, qualquer juiz de toga, de martelo e de pistola, sem um minuto de pausa lhe dava ganho de causa.
"Chega de saudade" – veja o caso deste samba gravado em 58
por Elizeth Cardoso, "pela pátina crestado": Vinícius ficou gamado. 0 biscoito da Cardoso foi divino, foi gostoso, mas era um samba-canção lindo e nunca passou disso não.
Mas quatro meses depois João gravou com a levada a voz no jogo sincopado, o violão todo abusado.
0 coitado foi chamado de cantor desafinado, sem ritmo, ventríloquo, mas diante do desafinado
o mundo curva-se, desova, e tudo então louvado foi jogado numa cova. 0 sol chocou 200 ovas e nasceu a bossa nova.
0 Carnegie Hall foi importante porque pinçou João,separou João como a grande gema, a grande jóia.
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4. O CÉU DESABOU 03m38s BRPUI0800290 Autor: Tom Zé Intérpretes: Guilherme Kastrup: percussão; Daniel Maia: violão e baixo; Cristina Carneiro: teclados; Íris Salvagnini, Luanda, Jarbas Mariz e Daniel Maia: backing vocal; Tom Zé e Tita Lima: vozes Editora: Irará. (Para os cantores da época,a BN foi um terremoto)
Mas tu já viste a bossa nova, a nova onda musical? Que nhenhenhém boçal, hein?!! Aposto cinco pau que isso não pega no Brasil e morre logo no vazio, ziu... Cantor ventríloquo, seu! / Vai que tá louco, tá pinel, qual é a dele, céus? 0 mestre da banda quando ouviu / ficou branquinho de cal regurgitou, passou mal... passou mal... passou mal Mas foi por causa dela que o céu desabou sobre suas estrelas / Tinhorão, que horror! Pecado pai que nosso palco num desavisado quebra cai, nosso mundo se vai. Caiu a Rádio Nacional, Tupi cadê?, Mairinque Veiga vê: Sinos dobram porque: Ali reinou Caubi, Marlene, Sapoti Só dava Dalva de Oliveira, ora Nora Ney, Orlando era lei Traía aura da Isaura, por amara Linda Anísio Silva com Dircinha Vinha Carmem Costa com a Emilinha Mas tu já viste a bossa nova.................. etc. Nem os clarins da banda militar tocaram pra nos lamentar (paradá paradá) nem sinfonia de pardais com o rádio de cabeceira sob um abajur lilás (paradá paradá) nem um mulato inzoneiro pra esquentar nossos pandeiros na Baixa dos Sapateiros (paradá paradá) Nem aquele trágico "manchei o teu nome!" no passeio em Paquetá no piquenique do Joá (paradá paradá) Mas seremos cultura gratos a nosso Fernando Faro, oh, que Ruy Castro, que Zu Ventura, oh! Que o Danilo nos mirando, oh! Zuza, que Homem de terno, oh! Cabral serca velas e Villas Alberto, oh! * Eli-Tárik faz de Souza, oh!
*"serca" é com s de Sérgio
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5. SÍNCOPE JÃOBIM 02m54s BRPUI0800291 Autor: Tom Zé Intérpretes:Guilherme Kastrup: percussão; Daniel Maia: violão, baixo, cavaquinho e guitarra; Íris Salvagnini, Luanda Jarbas Mariz e Daniel Maia: backing vocal; Tom Zé e Andréia Dias: vozes Editora: Irará. ai ai ai!, ei ei ei!, oi oi oi oi!, ui ui ui! (Síncopes, suspiros e desmaios) Venha de síncope, meu bem isso dá mão no bole-bole do João. Venha de síncope, meu bem isso dá pé no bole-bole do José. Antonio Carlos Jobim, Menescal (que tal, seu Nicolau?), Vinicius de Moraes, Baden Powell (que power, que pau!) Ronaldo Bôscoli, Nara Leão (ai,que pão) Carlos Lyra, Miéle e o baiano João. Carlos Lyra, Miéle e o feminino João. No Brasil reinava então o doutor samba-canção foi quando apareceu o cara do bim-bom. Que trouxe de Juazeiro, ensaiada no banheiro, a levada desossada que fez um salseiro e que desova na trova daquele tempero sincopado, sincopá (Isso não é desafinado?) ! É o bim-bom do João! (Isso não é desritmado?) ! É o bim-bom do João!
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6. FILHO DO PATO 03m13s BRPUI0800292 Autores: Tom Zé / Arnaldo Antunes Intérpretes: Guilherme Kastrup: percussão; Daniel Maia: violão e baixo; Marcelo Schulze-Blanck: didgeridou; Iris Salvagnini, Luanda, Jarbas Mariz e Daniel Maia: backing vocal; Tom Zé e Márcia Castro; vozes. Editoras: Irará / Rosa Celeste Tico-tico no fubaco no fubico fubá (bis) tico-tico no fubaco ensaiando o vocal 0 filho do pa...pati-quitu, pati-quitu também cantava alegremen... menti-quitu, menti-quitu e a marrequinha de repen... penti-quitu, pati-quitu pati-caiu também no samba pra no samba sambar E o filho do gan... eh eh eh afo-fo-fo ba-ba damen... men men men te qui-qui ri-ri ti-ti-mo quen... quiqui quen!!! ga-gaguejou a pata n'água da lagoa pra batucar Mas a rosa que era famosa em verso e prosa não pôde dançar porque estava bem presa no galho plantada na terra suspensa no ar sem sair do lugar se abriu para o céu e rezou pro vento andar ti-tico tico no fubaco............. etc. ................................. 0 pato-pai vinha voltando do batente quando aquele contraparente bateu na boca um reco-reco para a turma dedar E o neto do cisne também achando que era gente pensou a coisa diferente; abriu o bico para o tico-tico pôr no fubá Mas a rosa formosa, cheirosa, urbana da roça queria dançar e piscando os olhinhos, charmosa, sacou do chicote pro vento enquadrar e se despetalou, despernou, desbraçou e ordenou pro vento andar ti-tico no fubaco, ensaiando o vocal ............. etc.
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7. OUTRA INSENSATEZ, POE! 03m54s BRPUI0800293 Autor: Tom Zé Versão inglesa: David Byrne Intérpretes: Guilherme Kastrup: percussão; Daniel Maia: violão e baixo; David Byrne: guitarra; Iris Salvagnini, Luanda: backing vocal; Tom Zé e David Byrne: vozes. Editoras: Irará / Moldy Fig Music, Inc/BMI
Mas veja só, oh Deus do céu
No amor meu amor me deixou na porta da rua Ô ai de mim era noite era frio a cidade nua ai, Dindi, estouravam os fogos de um Ano Novo mas que triste Ano Novo catapora sarampo me deu uma febre impura deu de doer que batia no peito com ditadura te te perder de arame farpado em pele crua padecimento aquela noite nua e assim foi assim conheci outra insensatez minha maioridade que você fez ao me dar tantas dores de uma só vez tantas dores, meu Deus eras tu era tudo era nada meu coração e tu e na e só era a porta era a noite era uma canção só descanção Nunca mais, nunca mais, em seu refrão Lacciate qui tutta speranza voi qui uscite
OTHER STUPID STUFF I DID (english lyrics by DAVID BYRNE)
You're inside, oh my love, and you left me Outside the door, In the night, in the cold, in the naked town I can hear, it's the fireworks, and it's New Year's Day — Chicken pox, and then measles,and then, a nasty fever That entered my chest like an invading army With barbed wire wrapped around my young skin ... hmmmmm And / knew, once again, and I felt like a fool, & my passion was growing You know, I'm in pain It was you, it was nothing, it's only my heart Was the door, was the night Was a song Chicken pox, a new year, a fool I was young, and / didn't know how to begin...
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8.ROQUENROL BIM-BOM 03m03s BRPUI0800294 Autor: Tom Zé Intérpretes: Guilherme Kastrup: percussão; Daniel Maia: violão e baixo; Jarbas Mariz: bandolins; Iris Salvagnini, Luanda, Jarbas Mariz e Daniel Maia: backing vocal; Tom Zé e Jussara Silveira: vozes. Editora: Irará / Trama
Bim-bom bim-bom ... ... ... ... ... Um roquenrol, obladi, bem roquenrol, obladá, (bis) balada e soul, obladi, tal como eu sou, obladá. Vai passando nos quintais e os velhos casais dançando no salão cantam seu refrão. Um roquenrol um daqueles tais velho até demais que o tempo enferrujou e o terno desbotou. Um roquenrol vapor de Cachoeira não navega mais no mar ô marinheira, o jeito casar.
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9.MULHER DE MÚSICA 02m16s BRPUI0800295 Autores: Tom Zé / Arnaldo Antunes Intérpretes: Guilherme Kastrup: percussão; Daniel Maia: violão e baixo; Iris Salvagnini, Luanda, Jarbas Mariz e Daniel Maia: backing vocal; Tom Zé e Fabiana Cozza: vozes. Editoras: Irará / Rosa Celeste A Doralice me disse no desconsolo seu Doralice fora de si, quem que segura, meu a Berenice aborreci, pô, que sufoco deu a Gal pediu que eu fosse, eu fui, depois se arrependeu. Aquela Isaura que me azara mas nunca me deu agora diz que quer casar, oh que azaro meu. Mulher de música Refrão melhor ficar na música porque mulher de música é coisa de utilidade pública. E além disso, sinhá de iaiá, musa é musa e mulher de carne e osso vem a ser hipotenusa que me usa, parafusa, me recusa e ainda me acusa. Marina assim toda pintada parece um pincel Dora alisou o cabelo agora, quer usar chapéu a Isabel me acusa de abusar da regra 3 enquanto isso a Marieta só me diz talvez. Pra aquela Selma dei o céu, comida e aluguel na mão da Vera já virei bolinha de papel. Mulher de música... ... ... ... etc.
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10. BRAZIL, CAPITAL BUENOS AIRES 03m39s BRPUI0800296 Autor: Tom Zé Intérpretes: Guilherme Kastrup: percussão; Daniel Maia: violão e baixo; Jarbas Mariz bandolis; Iris Salvagnini, Luanda: backing vocal; Tom Zé e Fernanda Takai (gentilmente cedida por DECK DISC) : vozes Editora: Irará No dia em que a bossa nova inventou Brazil teve que fazer direito, senhores pares, (bis) porque a nossa capital era Buenos Aires, a nossa capital era Buenos Aires. E na cultura-Hollywood o cinema dizia que em Buenos Aires havia uma praia nem cantinho,nem Corcovado, chamada Rio de Janeiro que dó. que como era gelada só podia ter Carnaval no mês de fevereiro. Naquele Rio de Janeiro o tango nasceu e Mangueira o imortalizou na avenida Nem barquinho na Guanabara Originária das tangas Jamelão na verde-e-rosa com que as índias fingiam que dá cobrira graça sagrada da vida. No dia em que ... ... ... etc.
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11. AMOR DO RIO 03m26s BRPUI0800297 Autor: Tom Zé Intérpretes: Guilherme Kastrup: percussão; Daniel Maia: violão e baixo; Cristina Carneiro: teclados; Tom Zé e Zélia Duncan (gentilmente cedida por UNIVERSAL) : vozes. Editora: Irará 0 Rio era lindo demais e amava Niterói
que também dava sinais, doce paixão que dói.
E desconsolados olhares toda noite em vão
piscando sobre os mares numa eterna separação.
Dos contratempos musicais suaves que a bossa traz tal plataformas ao mar leves a flutuar
aí que nosso engenheiro esperto com ferro e concreto (bom)
fez aquele (bom) sambinha-herói fundeara Ponte Rio-Niterói.
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12. BOLERO DE PLATÃO 02m36s BRPUI0800298 Autor: Tom Zé Intérpretes: Guilherme Kastrup: percussão; Daniel Maia: violão e baixo; Cristina Carneiro: teclados; Iris Salvagnini, Luanda, Jarbas Mariz e Daniel Maia: backing vocal; Tom Zé e Marina De La Riva (gentilmente cedida por DECK DISC): vozes. Editora: Irará En noche de ronda sobe ni mim con todo a media luz desce ni mim en el camiño verde estoy. chega ni mim/ ou larga di mim El dia que me quieras alma di mim angelito negro salva di mim alma vanidosa soy. leva di mim/ ou larga di mim Perfume de gardenia perfidia sin remédio perdido solo yo sin ti aquellos ojos verdes solamente una vez no trates de mentir, no, no y no. 0 amor puro mandou dizer por e-mail Ah!, desça do muro que eu já tôo cheio. Já cansei de você nesse lero-lero essa velha letra de bolero e só aturo agora o velhaco do Platão como tal Kama-Sutra na mão e cantando: eu achei meu refrão.
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13. SOLVADOR BAHIA DE CAYMMI 03m51s BRPUI0800299 Autor: TOM ZÉ / versão em inglês CHRISTOPHER DUNN Intérpretes: Guilherme Kastrup: percussão; Daniel Maia: violão, guitarra e baixo; Jarbas Mariz: bandolins; Iris Salvagnini Luanda, Jarbas Mariz e Daniel Maia: backing vocal; Tom Zé e Anelis Assumpção: vozes. Versão inglesa: Christopher Dunn Editora: Irará / Irará Quando Caymmi criou essa suave Solvador-ô-ô ô-ô-ô-ô-ô-ô foi a Mãe Menininha que amamentou-ô-ô ô-ô-ô-ô-ô-ô Bahia que padece de usura e quer fazer torre de toda altura rebenta Barra quebra a Cayru e ninguém escapa desse cerca-jacu Buda que ensaia de pijama na Lapinha Gandhi gandaia que desmama a Barroquinha Baco tocaia uma mucama da Rocinha Mãe Menininha samba reza na Bahia Aqui em Solvador Bahia tudo, capitalista ou vagabundo, tênis, gravata ou cabelo branco, todo mundo tem um santo. SALVADOR BAHIA DE CAYMMI (english lyrics by CHRISTOPHER DUNN) When our Caymmi designed this sweet and lovely Solvador my mamma Menininha made us stronger Right here in Salvador Bahia people a greedy capitalist or street bum with tennis shoes, fancy neckties or white hair many patron saints for all souls Budha comes out to jam in pijamas at the street fair Gandhi gets happy and boogies down among the people Bacchus arrives and fancy ladies come out to greet him My Menininha samba blesses our Bahia.
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14. DE: TERRA; PARA: HUMANIDADE 03m49s BRPUI0800300 Autor: Tom Zé Intérpretes: Guilherme Kastrup: percussão; Daniel Maia: violão e baixo; Cristina Carneiro; teclados; Tom Zé e Badi Assad: vozes. Editora: Irará Eu sou a regra três Vai, coração, e sei que ela prefere na cicatriz, dar seu amor a um Deus, facas na mão, assim, me trata mal pingos nos is. embora eu lhe dê do meu peito Vou explodir não! alimento e sal. Peral, paraí, deixe assim, deixe estar; é melhor repensar. São tantos cios lagos e rios dou-lhe os pomares, imensos mares, meus arrepios. No seu proveito farei sobrar ao sol me deito e dou-lhe o peito pra semear. Ai ai ai Dindi, aiai de mim. Reservo todo o ar Vai, coração, pois sei que ela não pode na cicatriz, viver sem respirar facas na mão, e o próprio sol também pingos nos is. transformo em substâncias vitais Vou explodir: não! com que ela se sustém. Peral, paraí, deixe assim, deixe estar.
É melhor repensar
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AGRADECIMENTOS:
A Mãe Melânia, guia espiritual.
A meu pai, Éverton, cuja firmeza sustentou uma família enorme.Às pinturas de minha mãe, Helena.
A João Marcello Bôscoli, por sua idéia sobre cantoras.
À minha tia Gilka, que me levou a Salvador.
A Nemésio Salles, que me levou ao CPC.A Cassiano Elek Machado, pela assessoria intelectual.
A BN, A PONTE E O PODEROSO FEMININO
A tecnologia empregada pela engenharia brasileira na construção
da Ponte Rio-Niterói inspirou-se numa tradução intersemiótica, para
o ferro e o concreto, daquilo que a BN, abusiva e graciosamente, praticou antes, com notas
musicais deslocadas para o tempo fraco do compasso.Neste momento é preciso referir-se ao feminino.
O termo vem da própria teoria musical, que chama as finalizações no tempo fraco de “terminação feminina”.
Pergunto: há algo mais feminino que as síncopes da BN e suas colegas,as plataformas flutuantes? Estas,
desajeitadas e gigantescas, aquelas, frágeis e suaves. Ambas abandonadamente entregues à força das ondas
da graça e da leveza.A profundidade da folha d’água da Baía de Guanabara era um problema crítico para a
engenharia brasileira na construção da ponte. Então, essa bossa-nova, essas sincopadas e femininas plataformas
que flutuam foram capazes de portar o linga cósmico que estuprou o solo profundo da baía, para assentar as
fundações e resolver o problema da construção da Ponte Rio-Niterói.
E, tanto quanto a estética da BN, essa tecnologia foi um protótipo, um design inaugural, que a nossa
engenharia passou a exportar. Donde a dobrada vitória do feminino: duas femininas soluções dacabeça brasileira
acabaram se mostrando suficientemente consistentes para que aquela terra então longínqua, cuja capital fosse talvez
Buenos Aires ou Bogotá, se tornasse um País mais conhecido e confiável no exterior. No caso da BN, esta permitiu
ao Brasil ser protagonista de um fato inédito, seja na moderna história seja na história da antigüidade: um
povo começa o ano como exportador de matéria-prima, i. é, o grau mais baixo da aptidão humana e antes que o planeta
complete sua translação esse mesmo povo se apresenta ao mundo como exportador de Arte, i.é, o grau mais alto
da aptidão humana.Esse ano foi 1958.
BN: UMA VISADA PARCIAL E BAIRRISTA
Agosto, 1958. Para descrever a chegada daquele disco de João Gilberto em nossas vidas posso pedir ajuda à literatura
ou à via direta do folclore. Neste existe a expressão “ouvido de tuberculoso”. Pois bem, a BN instalou em minha
geração, em termos estéticos, uma espécie de percepção de tuberculoso.
Quanto à literatura, ela tem 3 ou 4 situaçõeslimite do ser humano comparáveis àquele fenômeno por que passamos:O chá
de tília com madeleine de Proust que, atuando no hipotálamo, “fotografa” em nós com a concisão de uma cápsula e a
rapidez de um raio – toda a história do samba, em sua complexidade que envolve cidade e sertão.
A conversa de Hans Castorp com Claudia Chauchat que Herbert Caro, ao pôr Thomas Mann em português, teve a sabedoria
de não traduzir do francês, para que todos nós o façamos. É uma febre-de-bacilos que aquela situação instala em nosso
discernimento, tal qual Chega de saudade + o violão de JG.
Ovídio expondo a metamorfose de Dafne,perseguida por Apolo, na mitologia grega.
A mutação da jovem inglesa na Gruta de Marabar criada por E.M. Forster em Passagem para a Índia.
O deslumbramento do leitor quando e como lhe é revelado o sexo de Diadorim em Rosa.
Diadorim me é particularmente atraente porque o homem brasileiro se tornaria muitomais feminino por causa da BN. Refiro-me a
um tipo de divisão-das-responsabilidadescivis que, praticada entre o homem e a mulher baianos, dá a esta mais espaço de
atuação nas decisões do casal e da sociedade e oferece àquele a vantagem de poder existir e viver numa leveza vantajosamente
mais feminina.
Não estou esquecendo o propalado machismo nordestino é uma outra e diferente questão.(Vamos respirar: esses baianos
falam demais incorrigíveis parlapatões.Descansemos para ler amanhã.)
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Banda de Tom Zé: Lauro Léllis: Bateria e design de percurssão Daniel Maia: Baixo, guitarra, violão e vocal Jarbas Mariz: Cavaquinho,percurssão, vocal Cristina Carneiro: Teclados, vocal Tom Zé: Arranjos
Produtor e diretor artístico:Daniel Maia Coordenação da produção: Neusa Martins Assistente de produção: Tania Lopes Sound designers: Marcelo Schulze Blanck e Gustavo Garbato Técnico: Guilherme Garbato Figurino: Laura Huzak Andreato Fotografia: André Conti Projeto Gráfico: Olívia Ferreira e Pedro Garavaglia / radiográfico Assistente de produção Biscoito Fino: Raquel Deleuse Coordenação geral: Joana Hime
UMA REALIZAÇÃO BISCOITO FINO 2008 Direção geral: Kati Almeida Braga Direção artística: Olivia Hime |
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