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Como sempre, explicando para confundir

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Diário de Notícias

Lisboa

CRÍTICA – MÚSICA

Como sempre, explicando para confundir

João Pedro Oliveira

O bom senso aconselha a nada escrever sobre o concerto de Tom Zé. A dizer apenas: vão ver, vale a pena – que o baiano ainda vai à Casa da Música (dia 10) e ao Teatro Municipal de Faro (dia 12). Desde logo porque o concerto de Tom Zé não foi um concerto. Foi outra coisa qualquer, difícil de classificar, uma performance a meio caminho entre uma palestra musicada e uma paródia com pretensões acadêmicas. Um espectáculo improvisado e desconcertante de princípio ao fim, em que o rigor musical foi reduzido a um conceito vago e desinteressante. E não há folha de jornal capaz de embrulhar o cometa que na quinta-feira passou pela Culturgest. Ainda assim, tentemos.

Tom Zé entrou em palco a discutir com um senhor inglês invisível, passou metade do tempo a desenhar esquemas explicativos  num quadro, praguejou contra o espírito de Carlos Mardel e a asneira de expulsar os árabes da Europa, convocou ditos  e pensamentos de Ortega y Gasset  e Camões, Charles S. Pierce e Aristótoles, Thomas Mann e Fernando Pessoa, Ezra Pound e Heráclito e Arthur C. Clarke, e até do seu velho amigo sertanejo Odair Cabeça de Poeta. Fez o elogio da sua pátria que é a língua portuguesa e expôs a tese – que era afinal razão essencial deste espectáculo – logo de início: “Longe de mim querer insinuar que Portugal teve influência no Tropicalismo. Eu quero é provar por A + B que Portugal fundou o Tropicalismo e que está na altura de cobrar o crédito que lhe é devido.”

O inglês invisível, entretanto silenciado e desterrado numa cadeira solitária nos confins do palco, era o jornalista inglês que, há dias em Londres, interpelou Tom Zé com a teoria de que o Tropicalismo tinha sido determinado “pelo rock internacional, os Beatles e todo esse negócio.” E foi para o desmentir que este quase septuagenário andou duas horas num alvoroço entre a guitarra ao centro do palco e o quadro onde ia  escrevinhando um esquema de aula que se propôs dar aos portugueses. Tudo para explicar que a semente universalista que deu origem ao Tropicalismo viajou com as caravelas em 1500, foi com os bandeirantes para o Nordeste e ali ficou 400 anos, conservada, intacta pelo isolamento. Até que uma primeira geração partiu para Salvador da Baía  para aprender a ler. Entre eles, Tom Zé, Caetano, Gil e Gal.

Tom Zé prometeu que daria lastro à palestra com canções “urbano-sertanejas”, provas irrefutáveis de sua tese. Treta. Com aquela lábia e talento selvagem, o baiano vendia dois quilos de banha de sucuri com a mesma facilidade e as mesmas canções. No alinhamento, mereceram destaque os temas retirados de Estudando o Samba, o notável álbum de 1976: Ui (Você Inventa), Dói, Vai (Menina amanhã de manhã) e Tô, em que o brasileiro canta, muito a propósito, “tô te explicando pra te confundir / tô te confundindo pra te esclarecer”. Confundida pela teoria, esclarecida sobre o seu gênio, a platéia despediu-se de Tom Zé lavada em lágrimas e riso, de pé, exigindo o segundo encore que nunca chegou.

 

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