TÃO ZÉ
20.10.06 15:11:17
PÁSSARO Q COME PEDRA
foto revista fader
Não há hoje nenhum show de música brasileira mais moderno e ousado do que o novo show de Tom Zé.
Nenhum receio de escrever isso, não há chance de erro, é cristalino para mim.
Ele estreou o show ontem à noite, no Sesc Pinheiros, e precisou até de um regente para organizar a própria avalanche sonora que criou, e que está no disco Danç-Êh-Sá - Dança dos Herdeiros do Sacrifício (Irará Edições Musicais), recém-lançado.
Tom Zé tocou todas as 7 músicas do seu novo disco, e elas não têm letras, só sons, cantos, acalantos, vocalizações, gargarejos, interjeições. Há momentos em que parece um festim dodecafônico, tem horas que tudo se desmancha num frevo pernambucano, tem hora que o forró come solto, com Jarbas Mariz esfolando um triângulo.
Tom Zé, eventualmente, se arrasta pelo chão com o pedestal do microfone nas costas, como um escravo crucificado, sob o açoite de um lamento de sua vocalista de apoio e sua tecladista. Muito forte, muito inesperado. Sem versos para convencer, as palavras não tinham a função de atalhos. Taka-ká é a prova de que a poesia concreta também podia ter dado em música.
Tom Zé convocou até um DJ para ajudar a reproduzir a música que brotou da sua cabeça, e que é uma espécie de compêndio de ritmos brasileiros. Senti até inveja da dedicação de sua banda, que acredita nos seus projetos e o segue com rigor (alguns, como o baterista, há mais de 20 anos), esforçando-se para trazer à tona os sons que você ouve lá no seu inconsciente.
Havia uma garotada grande na platéia, e eles adoraram. Tom Zé está com 70 anos, e parece um moleque, eternamente desafiando convenções, esbanjando entusiasmo. Os olhos do homem brilham de felicidade.
Eu quase chorei ao final. E ainda por cima o homem demonstra apreço pelo meu trabalho, é o que diz seu pessoal (eu que sou apenas um enganador meio habilidoso).
Gostei de tudo, só não compartilho do desencanto com a política que o artista agora declara publicamente. Nunca foi fácil a política, Tom Zé. Sempre foi um duelismo, e as intenções estão sempre mascaradas na política. Ninguém demonstra a grandeza de permitir a alternância, e o preconceito está se tornando mais forte do que nossa vocação para a tolerância. O Poder não está em busca da Verdade, mas está ferido em sua vaidade doentia. E, não podemos esquecer, a política nunca é menos do que a representação de nossos vícios coletivos, de nossa tentação pelo simplismo. Cumpre-nos desvelar tudo, buscar a essência, forçar a dialética e tentar tudo de novo na próxima.
Não que eu tenha a pretensão de ensinar-lhe qualquer coisa, sei quem é o Mestre aqui, e o que me faz feliz é poder testemunhar sua generosidade e engenho.
Jotabê Medeiros
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