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PARA QUEM QUISER APROFUNDAR O ASSUNTO ARRASTÃO-PLÁGIO

Parte da inspiração chegou-me pela história da crítica. Essa parte está aqui, contada no estilo do dominador, que é a palavra escrita. Outro lado da inspiração nasce  do meu universo mítico. E este se expressa só pessoal e oralmente.

Aqui estão plagiocombinações de diversos autores, inclusive de Harold Bloom, crítico-ensaísta que ensina nas Universidades de Yale e New York e cujo conceito de cânone é muito comentado no Brasil, entre os escritores jovens.

HISTORICISMO – Ao analisar a produção de um musico, a gente se lembra de que olhava-se sua biografia para justificar-lhe a obra. Era um a crítica afinada com a filosofia positivista. O plágio era pensado como uma seqüência causal, uma influencia que tornava a obra do “plagiador” uma obra menor e secundária.

CRÍTICA SOCIOLÓGICA – Num segundo momento, a crítica se engaja numa perspectiva sociológica. Preocupa-se com a classe social do produtor e para qual classe este produz. A obra espelharia infra-estruturas. Sentimos aqui os pressupostos marxistas. Interessava quem era plagiado, qual era a influência , nessas análises. Alguns plágios poderiam ser aceitos, ou melhor, seguidos, conforme a bula do “realismo socialista”. Outras “suspeitas” de plágio, quaisquer obras que não demonstrassem engajamento visível, eram malvistas.

Nesses primeiros momentos a “origem” é norteadora. O autor é visto como entidade demiúrgica, um ser raro. Lembremos a relação etimológica entre as palavras “origem” e “originalidade” ou entre “autor” e “autoridade”.

Até aqui, a produção artística era olhada segundo o tripé autor-obra-público.

ESTRUTURALISMO – Um terceiro momento abandona o contexto. Concentra-se na obra – na estrutura da obra. É a morte do autor (e do receptor), na medida em que se isola a obra para ser analisada, dissecada. Como nos procedimentos científicos.

Os elementos que compõe/caracterizam uma obra são chamados de funções. Procura-se estabelecer a gramática de um produto artístico. Na canção, que nos fala mais de perto agora, o refrão e as partes A e B têm suas funções analisadas e dissecadas.

O estruturalismo estuda ainda a relação entre letra (o que diz, o conteúdo) e a forma da música. Pensa-se a relação de elementos solidários por semelhança – e não pela diferença.

O procedimento é:

decompor o objeto a ser analisado;

chegar às funções básicas, ao cerne;

reestruturar o objeto em um simulacro dele, através do resultado da análise

o simulacro opera com a semelhança. Podemos brincar com a idéia de que a “plagiocombinação” trabalha com as diferenças.

O livro de Luiz Tatit (compositor brasileiro, de São Paulo) Semiótica da Canção é um exemplo de estudo estruturalista em (um bom) diálogo com a semiologia. Claude Lévi-Strauss em suas análises antropológicas, trabalha com a semelhança. Busca o que há de comum entre as diversas comunidades estudadas, para fazer uma gramática geral que embarque a totalidade das manifestações.

Ele estabelece um sistema dicotômico entre natureza e cultura. Tudo aquilo que se verifica em todas as comunidades pertence ao campo da natureza. Tudo que é convenção comunitária, de conteúdo moral, insere-se no campo da cultura. (Não conseguiu resolver a questão do incesto: este é tabu em todas as sociedades pesquisadas: é universal também cultural.)

A “bricolage” como um jogo, relaciona diversos elementos de um objeto. O “bricoleur” poderia trabalhar com diversas canções, de autores, estilos e período deiferentes. Mas estará sempre buscando as semelhanças entre essas canções para fechar sua tese, para estabelecer uma “gramática” que abranja a totalidade daquelas canções.

A bricolagem procuraria, na relação entre objetos diferentes entre si a afinidade existente. Como a afinidade entre a música latina e um sermão do Padre Antonio Vieira. Estou falando agora de Tangolomango, o Defeito 11 do CD.

A bricolagem divide:  a música dialoga com o ritmo latino; a letra faz referência à forma de um sermão barroco, de maneira irônica ou anárquica, sei lá.

Mas a bricolagem não vai elaborar a reflexão sobre um dos resultados dessa mistura: o “defeito de fabricação”.

Falando ligeiramente, digamos que Tangolomango, o Defeito 11, olha para o fato de na América Latina, desde a presença do Padre Vieira, ou seja, desde a colonização, até hoje, só haver uma coisa chamada “preocupação social” quando a classe dominante se sente atingida.

O estruturalismo não dá conta da alegoria presente em forma ou conteúdo. E alegoria pode ser isso que eu disse de Tangolomango, ou chamar um CD de Com Defeito de Fabricação. São atitudes estéticas que investem contra os objetivos que reduzem os terceiros-mundistas a mão-de-obra não especializada e barata.

PÓS-ESTRUTURALISMO – Os pós-estruturalistas consideram que uma canção como Tangolomango pode suscitar infinitos sentidos. Como se recortasse na música um aspecto, colocando-o em relação com outros objetos, de acordo com o interesse do crítico. Este poderia usar a canção citada como ponto de partida para ver o conjunto das outras canções que andei fazendo. Ou para ver, no cinema, na literatura, na segurança pública, os temas que a letra de Tangolomango aborda, não é? O fato é que ele não procuraria apenas semelhanças. Poderia ser o começo de um diálogo. Pela contigüidade e não pela ruptura. Entre a tradição e a rebelião.

Quando cito os “arrastões” no CD, poupo a crítica de ir atrás de identificações. Convido-a a estabelecer outras relações. Olhe, ao falar em plagiocombinação posso estar me atrevendo a dialogar com a tradição da cultura européia, colocando-a no jogo com elementos da cultura popular do Terceiro Mundo. Colocando as duas no mesmo patamar.

Ora, porque um terceiro-mundista, um andróide, está produzindo obras que caberiam, por tradição, aos primeiros-mundistas, esse andróide está colando, acrescentando àquela cultura dita superior, “defeitos” jecas, de gente não-letrada. Ou seja, ele está lhe acrescentando novos significados.

Pelo pós-estruturalismo, isso é um enriquecimento da cultura total, porque o andróide está abrindo a possibilidade de novos sentidos, novas articulações estéticas. Digamos que sem o “andróide “com defeito de fabricação” a cultura como um todo seria menos rica em significados.

Na cultura ocidental muitas manifestações foram totalmente apagadas ou soterradas por diversos interesses. O Brasil só passou a existir oficialmente para o Primeiro-Mundo quando foi legitimado pela escrita – pela carta que Pero Vaz Caminha escreveu ao rei, no Descobrimento. Porém, existe uma tradição brasileira anterior à escrita. Apesar de reprimida, manteve-se e contaminou os colonizadores. Os índios já produziam poemas, música, teatro. Mas não tinham linguagem escrita.

O artista ou o crítico toma posição, diz que lugar está falando, quando estabelece uma relação, quando escolhe com quê quer trabalhar. Ao contrário, o discurso do colonizador tem a intenção de parecer fundador – não quer revelar os plágios: é um a estratégia de dominação.

Uma imagem muito utilizada pelos pós-estruturalistas é a daqueles pergaminhos nos quais um texto era escrito por cima do outro, sobre o outro. Esses pergaminhos, que parecem deter uma verdade, são compostos de um emaranhado de textos. São um emaranhado de “verdades” sobrepostas.

 

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