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Guia da Folha - O Herói do palco - por Alexandre Agabiti Fernandes

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EDIÇÃO DO CD E DO DVD "O PIRULITO DA CIÊNCIA" MOSTRA A RADICAL ORIGINALIDADE COM QUE TOM ZÉ SUPEROU A FOBIA DAS APRESENTAÇÕES AO VIVO AO LONGO DE QUATRO DÉCADAS

O Pirulito da Ciência", retrospectiva da obra do compositor e cantor baiano Tom Zé, foi gravado ao vivo no Teatro Fecap, em agosto do ano passado . O resultado é um CD com 17 composições e um DVD com 27. Ambos se complementam: o CD traz duas peças, "Cultura de Irará" e "Roquenrol Bim-Bom", que não aparecem no DVD; e, logo na abertura deste, Tom Zé confessa que no começo da carreira "o palco era o sítio do medo, o sítio do terror, da paralisação". Superar esse medo significou para ele "tornar-se um herói do palco", como afirma antes de esclarecer as circunstâncias em que venceu a fobia.

Os franceses usam a expressão "bête de scène"- literalmente "monstro de palco"- para definir um artista que se entrega com afinco em suas apresentações ao vivo. "O Pirulito da Ciência" confirma que Tom Zé é mesmo um monstro no palco: muito à vontade em cena, esbanja carisma e energia que acabam envolvendo o público (algo perceptível tanto na audição das músicas quanto no registro filmado).
Apesar de escritas ao longo de quatro décadas, entre 1968 e 2008, as canções se sucedem com tal fluidez que parecem ter sido compostas de uma vez só. Entre uma musica e outra, Tom Zé conta (sobretudo no DVD, mas também em intervenções no início das faixas do CD) histórias tristes e engraçadas de sua vida em um cenário cheio de fios, cordas, redes e lâmpadas dependuradas.

Como quem não quer nada, mexendo-se como um "performer" e contando casos, ele deixa clara sua maneira carnavalesca de olhar o mundo, cheia de humor e ironia, que ignora convenções, articula a cultura popular com a existência fragmentada na sociedade moderna, antinomias estéticas e políticas.

Todo o espetáculo- as canções, o cenário e os figurinos (Tom Ze veste uma saia por cima da calca, mais tarde aparece de capacete e avental de plástico)- está permeado por oposições que  refletem a dialética antropofágica entre o regional e o universal, pelas tensões entre arcaico e moderno, rural e urbano, cafonice e bom gosto, experimentação e participação, consonância e dissonância.

Não custa lembrar que essas oposições sustentavam a abordagem tropicalista, e que Tom Zé foi, ao lado de Rogério Duprat (1932-2006), a figura mais singular do "movimento". Não por acaso, é o único dos tropicalistas que continua arriscando o salto sem rede de proteção, inventando formas novas- em que a surpresa pode estar no próximo compasso- observando a realidade de maneira radicalmente original, cheia de achados sutis, em que a política está muito presente, mas sem qualquer viés proselitista ou partidário.
Selecionado por Charles Gavin, o repertório é representativo do melhor da producão do compositor, mesmo com a ausência de canções fundamentais como "Morena", "Pecado, Rifa e Revista", "Botaram Tanta Fumaca", "O Riso e a Faca","2001" e "Parque Industrial".

O único extra do DVD é um documento precioso: uma entrevista em que Tom Zé fala sobre temas como sua prisão na época da ditadura militar, Euclydes da Cunha, a cultura nordestina, sua participação no CPC (Centro Popular de Cultura), o período em que andou esquecido e os tempos de estudante de música em Salvador.

 

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