NO CD ESTUDANDO A BOSSA, COMPOSITOR TECE PANORAMA ORIGINAL DO GÊNERO
Na Irará de 1958, corria à boca pequena que havia um rapaz no bairro de Brotas que sabia “fazer a levada”. Tom Zé foi um dos que correram para lá, e entrou na fila (“Tinha mais de 20”, lembra) para aprender a levada - nada menos que a batida de João Gilberto. Sua vez chegou, ele aprendeu. Não satisfeito, porém, nos últimos 50 anos ele voltou a entrar milhares de vezes naquela mesma fila - ou quase, afinal um sábio já disse que o mesmo homem nunca passa pela mesma fila duas vezes, ou algo assim. Suas passagens pela casa de Brotas são denunciadas em momentos como sua gravação de A felicidade (Tom e Vinicius), de 1976, e sua Vaia de bêbado não vale, de 1999, na qual ele afirma que a bossa nova inventou o Brasil. Agora, ele condensa todas todas essas lições no CD Estudando a bossa - Nordeste Plaza, que lança em sua estréia na Biscoito Fino.
- Minha vida teria sido outra se não tivesse ouvido Chega de Saudade. Não teria tanta fé na invenção se não tivesse vivido uma invenção daquele porte - diz olhando a orla de Copacabana.
É a invenção que guia seu estudo, no qual ele a entorta e entorta-se - como já fez em Estudando o samba (1976) e Estudando o pagode (2005). Está tudo lá: os vocais estilo Cariocas e o sal-sol-sul (Rio arrepio); a relação com a música americana (Roquenrol bim-bom); a conversa dos bossanovistas com o repertório pré-bossa (em Filho do pato, o Tico-tico no fubá aparece como um avô do personagem-título); o precursor Caymmi (Solvador Bahia de Caymmi; o caráter feminino do gênero (além de Tom Zé e David Byrne, as vozes do CD são de doze jovens cantoras convidadas, entre elas, Fernanda Takai e Mariana Aydar); seu papel de marco fundador do Brasil (Brazil, capital Buenos Aires); o ocaso em que foi lançado o samba-canção (O céu desabou); os arranjos de Jobim e a voz de João (Síncope Jãobim e João nos tribunais); os versos de Vinicius. Uma teia que tece o panorama mais original do movimento no ano em que tanto se falou dele. original não só pela relação que traça entre a bossa e a tecnologia usada na Ponte Rio-Niterói (que aparece na capa do CD): - Suas plataformas flutuantes são a tradução para concreto e ferro do que a bossa nova fez na música. O feminino das plataformas traduz o feminino das síncopes - teoriza, notando que ambas foram “tecnologias” que o país exportou.
FUNK CARIOCA SERIA FILHO DA BOSSA
Como cartilha para o estudo, Tom Zé adotou Chega de saudade, primeiro disco de João Gilberto. Distribuiu-o às cantoras e ouviu-o atentamente: - O canto lírico foi fruto de uma evolução de gerações. Mas João, sozinho em seu banheiro de Juazeiro, criou um uso novo da voz humana. Aliás, há dois banheiros que deveriam garantir um Nobel a seus construtores: o de Arquimedes (que, em sua banheira, descobriu a lei do empuxo) e o de João - brinca o compositor, que assina todas as músicas do CD, quatro com Arnaldo Antunes.
Ele explica que os contrapontos vocais usados no CD foram inspirados no violão de João. As vozes cruzadas de Samba em prelúdio (Baden e Vinicius) também foram referência:
- É como se eu multiplicasse Samba em prelúdio - diz, realcando a importância de Vinicius. - Ele era o poeta que escrevia na contracapa do Canção do amor demais coisas como “crestada pela pátina da vida”. E, depois fez letras que qualquer dona-de-casa entendia. Essa renúncia, essa entrega, é de uma grandeza...Com um leque menor de palavras, ele aumentou o repertório de sentimentos da classe média brasileira.
Da estréia de João, Tom Zé tirou também lições dos arranjos de Jobim - sobretudo nas cordas de Rio arrepio. - As cordas de Jobim são paradas. Quando há um elemento que se mexe muito, como o violão de João, Jobim percebeu que outro elemento, parado, também informa. Samba de uma nota só é um exemplo disso. A harmonia muda, então a nota ali nunca é uma só.
Tom Zé lança o CD no Circo Voador, no dia 7 de novembro. No palco, aprofundará, em canção inédita, a tese da relação entre bossa e funk - gênero citado (muito) de leve no disco.
- As ondas concêntricas geradas pela bossa nova bateram no funk carioca, em refrãos como o de Tô ficando atoladinha, um metarrefrão (por nos reportar a arte de fazer refrão), microtonal e plurisemiótico (ao atingir não só a audição, mas o tato, o olfato, o prazer sexual).
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