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Tom Zé - Ancas da tradição - Luís Antônio Giron - (Folha de S. Paulo - Ilustrada)

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BRAZIL 5:THE RETURN OF TOM ZÉ: THE HIPS OS TRADITION

Oitavo disco de estúdio do cantor, compositor e arranjador baiano Tom Zé. Produção executiva de David Byrne e Yale Evelev. Lançamento norte-americano da Luaka Bop. Distribuição Warner. Previsão de lançamento no Brasil: segunda quinzena de abril.

 

Aos 55 anos, o compositor baiano Tom Zé atinge uma contradição. Nunca fez milagres em casa. Fora dela, só falta a crítica se ajoelhar à sua passagem.

   A mágica inócua em território nacional torna-se referência da cultura brasileira nos EUA e na Europa, onde foi lançado, há um mês, o CD ``The Hips of Tradition``. O disco marca o retorno do artista, que nada lançava desde 1979. No Brasil, só sai em abril.
   O ressurgimento acontece por causa do astro pop David Byrne.  Ele lançou nos EUA em 1990 a coletânea ``The Best of Tom Zé``. Foi um sucesso, vendeu 20 mil cópias e virou clip da MTV.
   O novo disco levou dois anos para sair. Chegou ao mercado no final de dezembro. Resultado: entrevista no ``New York Times``, elogios na ``Rolling Stone``, uma resenha-ode no ``Village Voice`` e a parada de sucesso. A música ``Ogodô,Ano 2000`` está tocando nas rádios norte-americanas. O disco já ocupa os primeiros lugares da parada da ``Billboard`` na seção de ``New World Music``. Com direito a uma resenha (27 de novembro). de James Lien chamando-o de ``o mais notório iconoclasta da música brasileira``. O crítico A. Minus, do ``Village Voice`` (26 de janeiro), compara-o a Dylan e Weill e percebe nele a ``síntese fraturada de sentimento e sarcasmo``.
   Mas não é só fascínio nova-iorquino. Zé acabou de gravar, em São Paulo, um documentário para a rede francesa TV Arte, canal 5.
   Vai ao ar em março, no programa ``Megamix``. Transmitido às 20h aos domingos para toda a Europa, o programa vai retratar a obra do pop brasileiro. Com entrevistas, cenas da cidade e as músicas ``Ogodô...``, ``Fliperama`` e ``Jingle do Disco``.                                                          

Compositor constrói arte com cacos
Da reportagem local

  Durante o movimento tropicalista, Tom Zé se destacou por dispensar maestros. Não precisava de ninguém para dar forma a suas músicas. Discípulo de Widmer e Smetak, ele já se dedicava a transformar eletrodomésticos em instrumentos. ``Descompunha `` o pop desde os anos 60.
   Depois, o esquecimento da mídia e a busca de algo que parecia avesso às modas: a ``não-forma``, o caos, o caco, a análise morfopatológica das palavras, os tibres fora de tom. O músico se condenava a experimentar anos 70 afora. Seu ``Estudando o Samba``, de 76, caiu no vazio. Byrne percebeu ali uma arte de hesitações -algo que ele próprio perseguia, com dez anos de atraso.
   Agora ZÉ dá a reviravolta com ``The Hips of Tradition``, um CD com 18 faixas trabalhadas com um rigor e anarquia acima da média na música brasileira. O trabalho é dedicado à memória de Jackson do Pandeiro, o primeiro a misturar coco e rock, ainda nos anos 50. Zé se afirma como um novo mestre, de sambas armados sobre o esquema da geometria fractal (que postula as formas irregulares como objetivo). Zé faz cócegas nas ancas (``hips``, em inglês) da tradição. Conforme ele afirma em ``Tatuarambá``, sua tarefa é ``trazer o corpo de samba-babá``.
   A cada faixa corresponde uma referência. A primeira, o genial samba ``Ogodô, Ano 2000``, cheio de riffs insistentes de guitarras e duelo de cavaquinhos em notas superagudas, é inspirado na linguística de ficção do livro ``Congresso futurológico``, de Stanislau Lem. Na quase-bossa (a quase é tudo na sua música) ``Multiplicar-se Única``, fala da proliferação das canções, baseando-se na matemática de cantor e nos paradoxos do ``Quixote`` de Cervantes. Precisa mais? É o primeiro disco de música brasileira digno de figurar nos anos 90.
   Não ter sido lançado ainda no Brasil é símbolo de miséria.

 

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