Co-fundador da Tropicália leva furadeira para gravação
Quando o cantor e compositor baiano Tom Zé, de 62 anos, chegou ao estúdio de gravação no Soho munido de uma furadeira elétrica, na tarde da última segunda-feira, o baterista Sean Lennon não manifestou nenhum espanto. O assessor de imprensa da gravadora Luaka Bop havia avisado o filho de John & Yoko, por telefone, que fazia questão de participar de sessão. Calmamente, entre um e outro salgadinho macrobiótico e um beijo na namorada japonesa (chamava-se Yokio ), Sean tocou por algum tempo sua bateria, fornecendo um viés drum & bass à música entrecortada na interpretação de Tom Zé. Errou, corrigiu os takes e enfim sugeriu que o colega brasileiro colasse sua furadeira logo depois dos vocais.‘‘ Esta é a maravilha da tecnologia ’’, comentou. ‘‘ Podemos corrigir todos os nossos piores defeitos! ’’
Então veio a surpresa. Tom pediu revistas e jornais. Trouxeram edições novas do ‘‘ The Village Voice’’ e de uma revista de ópera em papel couché. O músico não teve dúvida: começou a furar impiedosamente a revista de ópera e a sacudir o jornal, produzindo aquilo que chamou de ‘‘ruído de rato’’, uma séries de cliques com a boca. Sean trocou biscoitos e olhares de pasmo com Yokio e aplaudiu da cabine de som. ‘‘Muito legal ! Grande idéia ! Pena que não tenha nenhum fotógrafo aqui para captar este momento.’’ Os sons resultantes do processo foram dos mais suaves, esculturas timbrísticas em homenagem à delicadeza, espalhadas como pontuações caóticas.
É o primeiro remix da carreira do músico de 27 anos. Lennon escolheu a faixa ‘‘ O Olho do Lago ’’ (Cid Campos) do novo CD de Tom Zé, intitulado ‘‘ Com Defeito de Fabricação ’’ (‘‘Fabrication Defect’’), para retrabalhar eletronicamente. Antes de começar as gravações do remix, Tom e Lennon se encontraram rapidamente para um primeiro contato pessoal. O baterista queria entender a letra da composição. Tom se esforçou para explicar que as paranomásias ‘‘lado/lago’’ e ‘‘lado/olho’’ tinham um sentido mais paradigmático do que sintagmático e propunham jogos de linguagem. ‘‘ Ah, sim! ’’, fez que entendeu Sean. Tom tinha medo que o DJ debutante soterrasse as palavras em oceanos de eletrônica. Mas, no final, elogiou: ‘‘ Dos remixes que fizeram até agora, você foi o único que respeitou a estrutura e não aloprou! ’’ Era o que Sean precisava ouvir.
O disco de Tom Zé estará nas lojas dos Estados Unidos no próximo dia 22. Não lança nenhum desde ‘‘ The Hips of Tradition ’’, de 1990. E a Luaka Bop planeja uma promoção intensa para o produto. Fora Sean, participam as bandas Tortoise, Stereolab e os DJs Amon Tobin, Sean O'Hagen e Sasha Frere-Jones.
A gravadora aposta no fato de Tom Zé ter sido um dos fundadores da Tropicália e o artista mais experimental do grupo original. David Byrne afirma que a música de Tom Zé está chamando atenção da nova geração, depois de encantar os anos 60, 70 e 80. ‘‘ Não pode haver melhor oportunidade para comemorar os dez anos da Luaka Bop e os oito do renascimento de Tom ’’, diz Byrne. ‘‘ Ele está cada vez melhor ’’.
Byrne é suspeito. Ele e Tom acabam de chegar de Portugal, onde fizeram o pré-lançamento de ‘‘ Fabrication Defect ’’. ‘‘ Eu fiz o acompanhamento para Tom. Ficou demais ’’.
Tom reconhece que o novo disco é mais melódico do que o anterior. ‘‘ Foi proposital ’’, diz. ‘‘ Compus 40 músicas baseado numa idéia engajada e paródica ao mesmo tempo. Vejo as populações pobres do terceiro Mundo como andróides com defeito de fabricação. E assim nós, andróides, temos que viver, pensar, sentir e dançar. No começo fiquei com medo porque o tema engajamento está fora de moda. Mas o fato é que Byrne adorou e o disco ficou muito interessante.’’
O slogan da campanha de lançamento é sintomático: ‘‘ Você está preparado para Tom Zé? Ele esperou 30 anos por você!’’. Está aparecendo no mercado americano como precursor da estilhaçada estética tecno. Não sem razão.
O CD faz jus ao novo status. É uma coleção de dezesseis ‘‘ defeitos ’’, que vão da curiosidade à burrice, do ‘‘politicar ’’ ao ‘‘ esteticar ’’. ‘‘ São quase-canções, que nunca chegam a se perfazer ’’. Define sua postura como ‘‘ estética do plágio ’’ . ‘‘ Pego coisas da sinfonia do cotidiano e elementos de minhas canções antigas, pego baiões e sambas e os faço virarem material para improvisações. ’’ De célula à célula, vai construindo um painel fragmentário da errática vida brasileira. ‘‘ O Brasil de hoje é um exportador de andróides defeituosos e de música de má qualidade. Fiz um disco para retratar a situação ’’, diz. Tom Zé, o único tropicalista ainda imcompreendido, faz o papel de exceção. Seus defeitos querem salvar. Detalhe: até a manhã de segunda-feira, nenhuma gravadora do Brasil havia se interessado em lançar o CD no país.
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