Somos um povo infeliz, bombardeado pela felicidade.
0 sorriso deve ser muito velho, apenas ganhou novas atribuições.
Hoje, industrializado, procurado, fotografado, caro (às vezes), o sorriso vende. Vende creme dental, passagens, analgésicos, fraldas, etc. E como a realidade sempre se confundiu com os gestos, a televisão prova diariamente, que ninguém mais pode ser infeliz.
Entretanto, quando os sorrisos descuidam, os noticiários mostram muita miséria.
Enfim, somos um povo infeliz, bombardeado pela felicidade.(As vezes por outras coisas também).
É que o cordeiro, de Deus convive com os pecados do mundo. E até já ganhou uma condecoração.
Resta o catecismo, e nós todos perdidos.
Os inocentes ainda não descobriram que se conseguiu apaziguar Cristo com os previlégios. (Naturalmente Cristo não foi consultado).
Adormecemos em berço esplêndido e acordamos cremedentalizados, tergalizados, yêyêlizados, sambatizados e miss-ificados pela nossa própria máquina deteriorada de pensar.
"-Você é compositor de música "jovem" ou de música "Brasileira"?"
A alternativa é falsa para quem não aceita a juventude contraposta à brasilidade.. (Não interessa a conotação que emprestam à primeira palavra).
Eu sou a fúria quatrocentona de uma decadência perfumada com boas maneiras e não quero amarrar minha obra num passado de laço de fita com boemias seresteiras.
Pois é que quando eu abri os olhos e vi, tive muito medo: pensei que todos iriam corar de vergonha, numa danação dilacerante.
Qual nada. A hipocrisia (é com z?) já havia atingido a indiferença divina da anestesia...
E assistindo a tudo da sacada dos palacetes, o espelho mentiroso de mil olhos de múmias embalsamadas, que procurava retratar-me como um delinqüente.
Aqui, nesta sobremesa de preto pastel recheado com versos musicados e venenosos, eu lhes devolvo a imagem.
Providenciem escudos, bandeiras, tranqüilizantes, anti-ácidos, antifiséticos e reguladores intestinais. Amem.
TOM ZÉ .
P.S.
Nobili, Bernardo, Corisco, João Araújo, Shapiro, Satoru, Gauss, Os Versáteis, Os Brazões, Guilherme Araújo, O Quartetão, Sandino e Cozzela, (todos de avental) fizeram este pastel comigo.
Músicas
Lado A
1- São São Paulo (Tom Zé) 3'29
2- Curso Intensivo de Boas Maneiras (Tom Zé) 2'58
3- Glória (Tom Zé) 3'20
4- Namorinho de Portão (Tom Zé) 2'35
5- Catecismo, Creme Dental e Eu (Tom Zé) 2'44
6- Camelô (Tom Zé) 2'15
Lado B
1- Não Buzine Que Eu Estou Paquerando
(rancho e etc. - Hino da LBAP) (Tom Zé) 2'39
2- Profissão de Ladrão (Tom Zé) 2'35
3- Sem Entrada e Sem Mais Nada (Tom Zé) 2'40
4- Parque Industrial (Tom Zé) 3'16
5- Quero Sambar Meu Bem (Tom Zé) 3'50
6- Sabor de Burrice (Tom Zé) 4'18
LADO A
1.São São Paulo (Tom Zé) |
2.Curso Intensivo de Boas Maneiras (Tom Zé) |
São São Paulo quanta dor São São Paulo meu amor
São oito milhões de habitantes De todo canto e nação Que se agridem cortesmente Correndo a todo vapor E amando com todo ódio Se odeiam com todo amor São oito milhões de habitantes Aglomerada solidão Por mil chaminés e carros Gaseados a prestação Porém com todo defeito Te carrego no meu peito
São São Paulo quanta dor São São Paulo meu amor
Salvai-nos por caridade Pecadoras invadiram Todo o centro da cidade Armadas de ruge e batom Dando vivas ao bom humor Num atentado contra o pudor A família protegida O palavrão reprimido Um pregador que condena Um festival por quinzena porém com todo defeito Te carrego no meu peito
São São Paulo quanta dor São São Paulo meu amor
Santo Antonio foi demitido E os ministros de Cupido Armados da eletrônica Casam pela tevê Crescem flores de concreto Céu aberto ninguém vê Em Brasília é veraneio No Rio é banho de mar O país todo de férias E aqui é só trabalhar Porém com todo defeito Te carrego no meu peito
São São Paulo quanta dor São São Paulo meu amor

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Fique à vontade Tiau, good bye, Ainda é cedo, Alô, como vai? Com Marcelino vou estudar Boas maneiras Pra me comportar.
Primeira lição: deixar de ser pobre, Que é muito feio. Andar alinhado E não freqüentar, assim, qualquer meio. Vou falar baixinho, Serenamente, sofisticadamente, Para poder com gente decente Então conviver.
Fique à vontade, .... .... etc.
Da nobre campanha Contra o desleixo Vou participar Pela elegância e a etiqueta Vou me empenhar Entender de vinhos, de salgadinhos, Esnoberrimamente, Trazer o País sob um requinte intransigente.
Fique à vontade, ... ..., etc.

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3.Glória (Tom Zé) |
4.Namorinho de Portão (Tom Zé) |
Como um grande chefe de família ele soube sempre encaminhar seus filhos para a glória glória, glória eterna.
Mas aguardando o dia do juízo por segurança foi-lhes ensinando a juntar muito dólar dólar, dólar na terra.
Ensinou-lhes bem cedo a defender a família e a tradição balançando a bandeira do bem o pecado punir sem perdão.
Mas nos seus pequenos erros preferir a casa alheia ressalvando a discrição e tudo isso ensinou com poucas palavras e muitas ações.
Ensinou-lhes bem cedo que a honra todos devem cultivar entretanto, ao tomar decisões ela nunca deve atrapalhar.
Mostrou que as boas razões a causa justa é que é nobre convive é com os milhões e tudo isso ensinou com poucas palavras e muitas ações

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Namorinho de portão, Biscoito, café, Meu priminho, meu irmão... Conheço essa onda, Vou saltar da canoa, Já vi, já sei Que a maré não é boa É filme censurado E quarteirão Não vai ter outra distração.
Bom rapaz, direitinho Desse jeito não tem mais (Bis)
O papai, com cuidado Já quer saber sobre o meu ordenado Já pensa no futuro E eu que ando tão duro Não dou pra trás, Entro de dólar e tudo, Pra ele o mundo anda muito mal, Lá vem conselho e coisa e tal.
Bom rapaz, direitinho, etc. etc.
Eu agüento calado Sapato, chapéu, O seu papo furado, Paris, lua de mel, A vovó no tricô, Chacrinha, novela, O blusão do vovô, Aquele tempo bom que já passou E eu, de "é", de "sim", de "foi".
Bom rapaz, direitinho, etc. etc.

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5.Catecismo, Creme Dental e Eu (Tom Zé) |
6.Camelô (Tom Zé) |
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Vou morrer nos braços da asa branca, No lampejo do trovão De um lado ladainha, Sem soluço e solução.
Nasci no dia do medo Na hora de ter coragem Fui lançado no degredo Diplomado em malandragem
Caminho, luz e risco, Aflito, Xingo, minto, arrisco, tisco, E por onde andei Eu encontrei o bendito fruto em vosso dente, Catecismo de fuzil E creme dental em toda a frente.
Pois um anjo do cinema Já revelou que o futuro Da família brasileira Será um hálito puro.
Nasci no dia do medo, etc. etc.
Pinta -la - inha Da cana vintinha Mandei dizer pro meu amor Faça a cama na varanda E não esqueça o cobertor
Não quero ser cantador Só fazer valentia Também gasto heroísmo Nos braços de uma Maria. Nos braços de uma Maria.

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Ó português, pare de uma vez De se queixar assim Da sua sorte ruim Eu que sou filho daqui, sou camelô E você vem das Portugas, querendo ser doutor Mas que horror
Calcule só O que é viver o tempo todo Perseguido pelo rapa Porque na hora da corrida Quem não sabe usar as pernas Vai ficar sem ter comida E veja lá
Farinha seca quantas vezes me faltou A carne na minha boca É coisa rara, sim senhor Lá em casa não tem água na torneira E vá logo sabendo Lá também não tem torneira
Não vou mais em festas Casamento ou batizado Pois o meu guarda-roupa Anda um pouco desfalcado E quando chega o carnaval tão animado Pra comprar fantasia Faço um abaixo-assinado E ainda tem assinante Que é na base do fiado

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LADO B
1.Não Buzine Que Eu Estou Paquerando (Tom Zé) |
2.Profissão de Ladrão (Tom Zé) |
Sei que o seu relógio
Está sempre lhe acenando BIS
Mas não buzine
Que eu estou paquerando
Eu sei que você anda Apressado demais Correndo atrás de letras, Juros e capitais
Um homem de negócios Não descansa, não: Carrega na cabeça Uma conta-corrente
Não perde um minuto Sem o lucro na frente Juntando dinheiro, Imposto sonegando,
Passando contrabando,
Pois a grande cidade não pode parar (BIS)
Sei que o seu relógio está sempre lhe acenando, Mas não buzine, que eu estou paquerando
A sua grande loja Vai vender à mão farta Doença terça-feira, E o remédio na quarta,
Depois em Copacabana e Rua Augusta, Os olhos bem abertos, Nunca facilitar, O dólar na esquina Sempre pode assaltar
Mas netos e bisnetos Irão lhe sucedendo Assim, sempre correndo, Pois a grande cidade não pode parar,

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Deram parte ao delegado
Que eu era filho vadio
Semana que eu não trabalhava
Sustentava mulher com cinco fio
O delegado me intimou
Pr´eu ir na delegacia
Fui prestar depoimento
Daquilo que eu nem sabia
Mas eu tenho tanta profissão
Que já nem sei contar
Inventor, industrial, até cirurgião
Em muita gente que não presta fiz
intervenção
Vou lhe contar
Que no fabrico de boneco sou industrial
Mas vosmicê guarde segredo pela caridade
Pois eu atendo a domicílio na sociedade
E como inventor me orgulho porque eu
Já honrei a memória de Santos Dumont
Inventei um maquinário
Ainda lá na minha terra
Fabricava mil cruzeiros
Mais bem-feito que os da Inglaterra
Sei que quem rouba um, é moleque
Aos dez, promovido a ladrão
Se rouba 100 já passou de doutor
E 10 mil, é figura nacional
E se rouba 80 milhões...
É a diplomacia internacional
A "Boa Vizinhança" e outras tranças
É que na profissão de ladrão
Injustiça e preconceito
Dá chuva pra inundação
Para alguns fama e respeito
Pra outros a maldição
Pois o tamanho do roubo
Faz a honra do ladrão
E é por isso que eu só vou para o xadrez
Seu delegado
Se o senhor trouxer primeiro
Toda a classe para o meu lado
Mas neste dia de aflição
Não vai ter prisão no mundo
Pra caber a multidão
Eu sei que não sou delicado
Mas quem se deu por ferido
Foi porque tem seu pecado

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3.Sem Entrada e Sem Mais Nada (Tom Zé) |
4.Parque Industrial (Tom Zé) |
Sem entrada e sem mais nada, Sem dor e sem fiador Crediário dando sopa Pro samba eu já tenho roupa, Oba, oba, oba ....
Sem entrada e sem mais nada, Sem dor e sem fiador, E ora veja, antigamente O fiado era chamado "Cinco letras que choram" E era feio: um rapaz educado Não dizia palavrão, Não comprava no fiado Nem cuspia pelo chão.
Mas hoje serenamente Com a a minha assinatura Eu compro até alfinete, Palacete e dentadura. E a caneta para assinar Vai ser também facilitada.
Sem entrada e sem mais nada, etc. etc. Cinco letras que choram: Já se via um cartaz dentro da loja Pra cortar a intenção Mas o fiado que era maldito Hoje vai de mão em mão
Você compra troca e vive Sufocado, a prestação, Vou propor no crediário A minha eterna salvação E a gorjeta de São Pedro Vai ser também facilitada.

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Retocai o céu de anil Bandeirolas no cordão Grande festa em toda a nação.
Despertai com orações O avanço industrial Vem trazer nossa redenção.
Tem garota-propaganda Aeromoça e ternura no cartaz, Basta olhar na parede, Minha alegria Num instante se refaz
Pois temos o sorriso engarrafado Já vem pronto e tabelado É somente requentar E usar, É somente requentar E usar, Porque é made, made, made, made in Brazil. Porque é made, made, made, made in Brazil.
Retocai o céu de anil, ... ... ... etc.
A revista moralista Traz uma lista dos pecados da vedete E tem jornal popular que Nunca se espreme Porque pode derramar.
É um banco de sangue encadernado Já vem pronto e tabelado, É somente folhear e usar, É somente folhear e usar.
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5.Quero Sambar Meu Bem (Tom Zé) |
6.Sabor de Burrice (Tom Zé) |
quero sambar, meu bem quero sambar também não quero é vender flores nem saudade perfumada quero sambar, meu bem quero sambar também mas eu não quero andar na fossa cultivando tradição embalsamada
meu sangue é de gasolina correndo, não tenho mágoa meu peito é de sal de fruta fervendo no copo d´água

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veja que beleza em diversas cores veja que beleza em vários sabores a burrice está na mesa
ensinada nas escolas universidade e principalmente nas academias de louros e letras ela está presente e já foi com muita honra doutorada honoris causa não tem preconceito ou ideologia anda na esquerda, anda na direita não tem hora, não escolhe causa e nada rejeita
veja que beleza em diversas cores veja que beleza em vários sabores a burrice está na mesa
refinada, poliglota ela é transmitida por jornais e rádios mas a consagração chegou com o advento da televisão é amigo da beleza gente feia não tem direito conferindo rimas com fiel constância tu trazes em guarda toda concordância gramaticadora da língua portuguesa eterna defensora

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Ficha Técnica
Produtor : João Araújo
Assistente: Shapiro
Arranjos : Damiano Cozella , Sandino Hohagen
Técnicos de Gravação : Gauss / Reinaldo
Estúdio – Gazeta – S. Paulo
Layout da Capa e fotos: Officina Programação Visual – SP
Participação Especial : Os Versáteis – faixas 2-4-5-6 lado A
3-4-6 lado B
Os Brasões – faixas 1 e 3 lado A
