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Home Imprensa Com defeito de fabricação - Luaka Bop/wea - 1998 - Trama -1999

Com defeito de fabricação - Luaka Bop/wea - 1998 - Trama -1999

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COM DEFEITO DE FABRICAÇÃO

Luaka Bop/ WEA, Setembro 1998

Edição Brasileira pela Gravadora TRAMA - 1999

APCA 98 - Grande Prêmio da Crítica da Associação Paulista de Críticos de Arte - Música Popular

Escolhido pelo The New York Times como um dos 10 melhores discos de 1998.

 

"... um disco delicioso de se ouvir, no qual os efeitos de sua inquietação transculturalista não trazem os defeitos da empolada erudição. "Com Defeito..." é um disco lúcido e lúdico."

Tatiana Lima - A Tarde

 

"De célula a célula vai construindo um painel fragmentário da errática vida brasileira."

Luís Antonio Giron - Gazeta Mercantil

 

Ficha Técnica

Defeito de Fabricação

O Terceiro Mundo tem uma crescente população. A maioria se transforma em uma espécie de "andróides", quase sempre analfabetos e com escassa especialização para o trabalho.

Isso acontece aqui nas favelas do Rio, São Paulo e do Nordeste do país.E em toda a periferia da civilização.

Esses andróides são mais baratos que o robô operário fabricado em Alemanha e Japão.

Mas revelam alguns "defeitos" inatos, como criar, pensar, dançar, sonhar; são defeitos muito perigoso para o Patrão Primeiro Mundo.

Aos olhos dele, nós, quando praticamos essas coisas por aqui, somos "andróides" COM DEFEITO DE FABRICAÇÃO.

Pensar sempre será uma afronta.

Ter idéias, compor, por exemplo, é ousar. No umbral da História, o projeto de juntar fibras vegetais e criar a arte de tecer foi uma grande ousadia. Pensar sempre será .

 

A Estética do Plágio

A Estética de Com Defeito de Fabricação re-utiliza a sinfonia cotidiana do lixo civilizado, orquestrada por instrumentos convencionais ou não : brinquedos, carros, apitos, serras, orquestra de Hertz, ruído das ruas, etc. , junto com um alfabeto sonoro de emoções contidas nas canções e símbolos musicais que marcaram cada passo da nossa vida afetiva. A forma é dançável, rítmica, quase sempre A-B-A. Com coros, refrões e dentro dos parâmetros da música popular.

O aproveitamento desse alfabeto se dá em pequenas "células", citações e plágios. Também pelo esgotamento das combinações com os sete graus da escala diatônica (mesmo acrescentando alterações e tons vizinhos) esta prática desencadeia sobre o universo da música tradicional uma estética do plágio, uma estética do arrastão (**).

Podemos concluir, portanto, que terminou a era do compositor, a era autoral, inaugurando-se a Era do Plagicombinador, processando-se uma entropia acelerada.

** Arrastão: Técnica de roubo urbano, inaugurada em praias do Rio de Janeiro. Um pequeno grupo corre violentamente através de uma multidão e "varre" dinheiro, anéis, bolsas, às vezes até as roupas das pessoas.

 

Músicas

Convite: Ouça agora trechos das canções do disco

1. Defeito1: O GENE 2:00
2. Defeito2: CURIOSIDADE 4:12
3. Defeito3: POLITICAR 2:37
4. Defeito4: EMERÊ 3:09
5. Defeito5: O OLHO DO LAGO 2:04
6. Defeito6: ESTETICAR 2:53
7. Defeito7: DANÇAR 2:18

Real Audio

8. Defeito8: ONU, ARMA MORTAL 1:04
9. Defeito9: JUVENTUDE JAVALI 2:47
10. Defeito10: CEDOTARDAR 1:10
11. Defeito11: TANGOLOMANGO 2:51
12. Defeito12: VALSAR 1:12
13. Defeito13: BURRICE 2:33
14. Defeito14: XIQUEXIQUE 5:25


1. Defeito1: O GENE
(Tom Zé / Pedro Braz)

A gente já mente no gene
A mente do gene da gente
Faça suas orações 
Uma vez por dia
Depois mande a consciência 
Junto com os lençóis
Pra lavanderia

Arrastão de Santo Agostinho

2. Defeito2: CURIOSIDADE
(Tom Zé / Gilberto Assis)

Quem é que tá botando dinamite
Na cabeça do século ?
Quem é que tá botando tanto piolho
Na cabeça do século ?

Quem é que tá botando tanto grilo
Na cabeça do século ?
Quem é que arranja um travesseiro
Pra cabeça do século ?
Pra cabeça do século ?

Arrastão de Alfred Nobel e de sua dinamite

3. Defeito3: POLITICAR
(Tom Zé)

Bis     Filha da prática
Filha da tática
Filha da máquina
Essa gruta sem-vergonha
Na entranha
Não estranha nada

Meta sua grandeza
No Banco da esquina
Vá tomar no Verbo
Seu filho da letra

Meta sua usura
Na multinacional
Vá tomar na virgem
Seu filho da cruz.

Meta sua moral
Regras e regulamentos
Escritórios e gravatas
Sua sessão solene.

Pegue, junte tudo
Passe vaselina
Enfie, soque, meta
No tanque de gasolina.

Arrastão de Rimsky Korsakov e do músico anônimo que toca na noite paulistana

4. Defeito4: EMERÊ
(Tom Zé / Zé Miguel Wisnik)

emeremê emeremê
emeremê emeremê

Arrastão dos cantos de trabalho de uma escravatura anterior, conforme o Brasil bucólico que as esquerdas queriam

5. Defeito5: O OLHO DO LAGO
(Cid Campos)

No lago do olho
De lado no lodo
De olho no lado
No lodo do lago
Lágrima afunda
Profunda lama
Olho
Lodo
Lado
Lago
Lama

Arrastão da Poesia Concreta

6. Defeito6: ESTETICAR (Estética do Plágio)
(Tom Zé / Vicente Barreto / Carlos Rennó)

Pense que eu sou um caboclo tolo boboca
Um tipo de mico cabeça-oca
Raquítico típico jeca-tatu
Um mero número zero um zé à esquerda
Pateta patético lesma lerda
Autômato pato panaca jacu

Penso dispenso a mula da sua ótica
Ora vá me lamber tradução inter-semiótica

Se segura milord aí que o mulato baião
(tá se blacktaiando)
Smoka-se todo na estética do arrastão

Ca esteti ca estetu
Ca esteti ca estetu

Ca esteti ca estetu
Ca esteti ca estetu
Ca estética do plágio-iê

Pensa que eu sou um andróide candango doido
Algum mamulengo molenga mongo
Mero mameluco da cuca lelé
Trapo de tripa da tribo dos pele-e-osso
Fiapo de carne  farrapo grosso
Da trupe da reles e rala ralé

Arrastão dos baiões da roça. Espinha dorsal

7. Defeito7: DANÇAR
(Tom Zé)

Dançar escreve
Um traço leve
O verbo de Deus be-a-bá

A pele tensa
Papel-imprensa
O pergaminho do jaguar

Para pisar 
Golpes de ar 
Desambaraçam-se linhas

Alinhavar
Paixões e ais
Diagonais agonias

Ô menina que dança se
Você for
PernambuCatarinAmaraliNatal
Também vou

Ô menina que dança se
Você for
Que'sse cané de ou certá namô
Também vou

Andar com meu pé eu vou
Que o pé se acostuma a dançar

Arrastão de Jorge Luís Borges, Caetano Veloso e Gilberto Gil


8. Defeito8: ONU , ARMA MORTAL

(Tom Zé / André Abujamra)

No reco-reco U.N. ONU
Teleco-teco ONU U.N.
Nesse pagode U.N. ONU
Naquele rock ONU U.N.

Uma ONU pra manter a paz
E a turma lá, que turma, 
Fabrica armas mortais

Bis    Fuzil, metralhadora, cruzador
No squindô squindô dô
Bazuca, bomba, tanque arrasador
No squindô squindô dô



Arrastão de Martinho da Vila e do estilo pagode


9. Defeito9: JUVENTUDE JAVALI

(Tom Zé)

Vinho das pernas abertas
Molha o altar das ofertas
Gritos, esperma e algema
Fúria de pura alfazema

Lua no quarto do cio - oh!
Tímida fruta, nudez - pudor
Tênis e tetas, licor - cor
Medo, cu doce, querer - pavor

Se na juventude já vem tudo javali
O afoito desse coito é coisa que já lá vi, la vi, la vi

Baco, buraco, curva, uva que já colhi
Meta-micose coça, cada um cuide si  de si, de si

Arrastão de Tchaikovsky (concerto para violino em ré maior) e das antífonas e do falsobordão da Idade Média.


10. Defeito10: CEDOTARDAR

(Moacir Albuquerque /Tom Zé)

Tenho no peito tanto medo,
é cedo
Minha mocidade arde, 
é tarde
Se tens bom-senso ou juízo,
eu piso
Se a sensatez você prefere,
me fere
Vem aplacar esta loucura,
ou cura
Faz deste momento terno, 
eterno
Quando o destino for tristonho,
um sonho
Quando a sorte for madrasta,
afasta

Não, não é isto que eu sinto,
eu minto
Acende essa loucura
sem cura
Me arrebata com um gesto
do resto
Não fale, amor, não argumente
mente

Seja do peito que me dói,
herói
Se o seu olhar você me nega
me cega
Deixa que eu aja como louco,
que é pouco
No mais horroroso castigo,
te sigo

Arrastão dos trovadores provençais e de seus ecos


11. Defeito11: TANGOLOMANGO

(Tom Zé / Adoniram Barbosa)

Rico chega na dança
de braço dado
O diabo enche a pança
de braço dado

O olho grande e a ganância
de braço dado
Ao dólar reverência
todo arriba-saiado
Aos juros, esconjuros
todo calça-arriado

Isso é o tangolomango

O rico hoje, coitado,
É preso, todo cercado
Arrodeado de grades
Porteiroguarda e alarme

Arranje, Senhor, um porto
Que ele não 'steja acuado
Com um pouco de conforto
Pra ele estar sossegado

Mas a verbá, a verbé,
A verborrologia dessa politimerdia
É o tangolomango
E a cárdio-filosoporria
É o tangolomango

Bis    E é nesse tangolomango
Que me voy pal pueblo


Arrastão do estilo musical latino e da reductio ad absurdum do Sermão do Padre Antonio Vieira para São Benedito


12. Defeito12: VALSAR

(Tom Zé )

Toma-me valsa
Nua e descalça
Sê em meu corpo
Deus ou José

Um  dois  três, sim
Senhor, oh não,
Dois  três, pé-ante-pé

Um dois serei
De vinho e pão
Maria em Nazaré

Toma-me valsa ...

Arrastão de Ernesto Nazareth, Zequinha de Abreu e da música pós-barroca e renascentista italiana, plagiadas pela assim chamada "música popular brasileira"



13. Defeito13: Burrice

(Tom Zé)

Veja que beleza
Em diversa cores
Veja que beleza
Em vários sabores
A burrice está na mesa

Veja que beleza !

Refinada, poliglota
Anda na direita 
Anda na esquerda
Mas a consagração
Chegou com o advento

Da televisão
Da televisão
Da televisão

(Refrão)

Ensinada nas Escolas
Universidades e principalmente
Nas academias de louros e letras
Ela está presente
Ela está presente

(DISCURSO  POLÍTICO)

Senhoras e senhores,
Senhoras e senhores,
Se neste momento solene não lhes proponho um feriado comemorativo para a sacrossanta glória da burrice nacional, é porque todos os dias, graças a Deus, do Oiapoque ao Chuí dos pampas aos seringais, ela já é gloriosamente festejada, gloriosamente festejada.

Arrastão de Flaubert, no ''Sottisier" de "Bouvard et Pécuchet" e da música caipira

14. Defeito14: Xiquexique
(Tom Zé / José Miguel Wisnik )

Eu vi o cego lendo a corda da viola
Cego com cego no duelo do sertão
Eu vi o cego dando nó cego na cobra
Vi cego preso na gaiola da visão
Pássaro preto voando pra muito longe
E a cabra cega enxergando a escuridão

Eu vi a lua na cacunda do cometa
Vi o zabumba e o fole a zabumbá
Eu vi o raio quando o céu todo corisca
E o triângulo engulindo faiscá
Vi a galáctea branca na galáctea preta
Eu vi o dia e a noite se encontrá
Eu vi o pai, eu vi a mãe, eu vi a filha,
Vi a novilha que é filha da novilhá
Eu vi a réplica da réplica da bíblia
Na invenção dum cantador de ciençá
Vi o cordeiro de Deus num ovo vazio
Fiquei com frio, te pedi pra me esquentá

Eu vi o cego lendo a corda da viola
Cego com cego no duelo do sertão
Eu vi o cego dando nó cego na cobra
Vi cego preso na gaiola da visão
A asa branca a asa branca a asa branca
E a cabra cega enxergando a escuridão

E-um e-um e-um
Baião de dois
De bim-bom
Baião de um


Arrastão do fole da sanfona de Osvaldinho do Acordeon
e de todos os sanfoneiros do Nordeste

 

Ficha Técnica

Músicos : 
Tom Zé - voz, violão, bochexaxado e bexiguinha no dente
Dino Baroni - violão
Marcos di Santis - trombone
Gilberto Assis - baixo, violão, bandolin, voz, rabeca, baixolão
Jarbas Mariz - percussão, violão de 12 cordas, bandolin, garrafas e voz.
Marco Prado - bongô, violão de 10 cordas
Lauro Léllis - bateria
Cristina Carneiro - voz, teclados e garrafas
Luanda - voz
Nilza Maria - voz
Tom Zé e Gilberto Assis - arranjos

Músicos Convidados :

Em "O Gene" : 
Michael Sauri - violões ; Gary Negbaur - wurlitzer ; Bryan Martin - baixo, voz de fundo e participação nos arranjos ; Yianni Papodopoulos - programação ; Goran Petrovic - participação nos arranjos.

Em "Curiosidade":
Yianni Papodopoulos - programação ; Goran Petrovic - violões, bandolin, voz de fundo e participação nos arranjos ; Bryan Martin - Wurlitzer, baixo, voz de fundo e participação nos arranjos.

Em "Politicar" :
Jarbas Mariz - vocais de contraponto; John Ragusa - flauta; Yianni Papodopoulos - programação; Jimmy Daniel - baateria e tamborim; Bryan Martin e Goran Petrovic - participação nos arranjos.

Em "Emerê":
Siba - rabeca; Zé Miguel Wisnik - teclados; Paulo Tatit - pilão.

Em "O Olho do Lago":
Yianni Papodopoulos - programação ; Gary Negbaur - piano e participação nos arranjos; Bryan Martin - baixo e participação nos arranjos

Em "Esteticar":
Vicente Barreto- violão ; Dimitrios Maragkos - sanfona

Em "Dançar":
David Byrne - guitarra; Michael Sauri - violões; Jimmy Daniel - bata

Em "ONU, Arma mortal":
André Abujamra - voz

Em "Juventude Javali":
Marle Oliveira canta a introdução

Em "Valsar":
Marle Oliveira - voz

Em "Cedotardar":
Dimitrios Maragkos - acordeão

Em "Xiquexique": Arnaldo Antunes, Zé Miguel Wisnik, Paulo Tatit e Ná Ozzetti - vozes;  Jarbas Mariz - guitarra; Toninho Ferragutti - sanfona; Marcos Suzano - percussão; Neto- Fontes (Bochexaxado e Bexiguinha no Dente).

 

Produção - Bryan Martin

Produção brasileira - André Abujamra e Gilberto Assis

Engenharia - Adriano Cintra - Job Studio - Brasil

Gravações adicionais - Bryan Martin - Excello Studios - Brooklin, NY

Mixagens - Bryan Martin com alguns efeitos de David Byrne - Kampo Audio, NY

"Emerê" e "Xiquexique" produzidos por José Miguel Wisnik - estúdio Rosa Celeste - São Paulo, Brasil

Participação nos arranjos - Paulo Tatit e Alê Siqueira

Orientação e Direção - David Byrne e Yale Evelev

Direção de arte - Chris Capuozzo, Peter Girardi - Funny Garbage

Ilustrações - Chris Capuozzo - Funny Garbage

Tradução para o Inglês no libretto original - Alex Ladd

Consultoria Geral - José Miguel Wisnik

Pesquisa - Tatiana Lima e Marcos Botelho

Pesquisa Sociológica - Helena Abramo

Orientação espiritual - Melania

Dedicado a :

Luiz Tatit, compositor paulista, por suas canções e à minha esposa, Neusa.

Agradecimentos Especiais :

Elifas Andreato, Zuza Homem de Melo, Carlos Callad, Roberto Santana, Alfredo Moura, Grupo Corpo

-------
Arnaldo Antunes - cortesia de BMG Brasil Ltda.

Tom Zé, Pedro Braz, José Miguel Wisnik, Gilberto Assis, Cid Campos, Vicente Barreto e Moacir Albuquerque - publicados pela editora Arlequim, Brasil (EMI)
Carlos Rennô publicado pela editora Gegê, Brasil (EMI)
André Abujamra publicado pela Editora Spin, Brasil (ASCAP)
Adoniran Barbosa publicado pela editora Brasil, Brasil (EMI)

Edição Brasileira pela Gravadora TRAMA - 1999



 

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