NO JARDIM DA POLÍTICA - 1998
Documento histórico, Show gravado ao vivo em 1985 no Teatro Lira Paulistana.
(TZ 1073)

No Jardim da Política (introdução) (Tom Zé); voz e violão : Tom Zé; violão, Charles...
No Jardim da Política
Quando este show estreou no Lira Paulista, numa quarta-feira, a Censura Federal, órgão da Divisão de Diversões Públicas, adorado pelos artistas engajados, estava em plena vigência.
Quando fizemos a gravação, na última récita do sábado, terminando a curta temporada, a cuja já havia sido extinta.
"A censura acabou!" foi uma repetida manchete na imprensa.
Restituída a liberdade de Clio, Calíope, Terpsicore, Erato e das outras todas musas filhas de Mnemosine, na fase histórica chamada de "abertura", esperava-se ver o país regurgitando arte. Foi uma decepção. Ah-pois, senhores. Aqui está este Jardim da Política, com uma leve cor de documento, a voz crua procurando o porto dos bordões lá onde se guardam as canções desprotegida em sua nudez, quase a palo seco, como lembra João Cabral.
Antes que a inteligência nacional me desinterprete, a canção Classe Operária é uma "reductio ad absurdum".
Músicas

1. No Jardim da Política (introdução) (TOM ZÉ)
Teatro Lira Paulistana, 1984. Eu, Tom Zé, o locutor que vos fala, mais Charles Furlan, que me ajudava na sala e o violão decantava, canto, vamos apresentar um show que se chamava "No Jardim da Política". É, meu bem, vamos passear. Chega nega morena, vem vamos passear vamos passear, sim, vamos dar um passeio juntos me dê a mão, vamos passear neste antigo documento: um passeiozinho que é pertinho, tá catá pé daqui, pé de lá, oh, que cheiro bom de jardim!

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2. Democracia (VICENTE BARRETO - TOM ZÉ)
Democracia que me engana na gana que tenho dela cigana ela se revela, aiê; democracia que anda nua atua quando me ouso amua quando repouso.
É o demo o demo a demó é a democracia é o demo o demo a demó é a democracia.
Democracia, me abraça com tua graça me atira desfaz esta covardia, aiê; democracia não me fere mira aqui no meio atira no meu receio.
Democracia que escorrega na regra não se pendura na trégua não se segura, aiô; democracia pois me fere e atira-me bem no meio daquilo que mais eu mais receio.
Democracia, não me deixe sou peixe que fora d'água se queixa, morre de mágoa, aiê; democracia não se dita maldita seja se dura, palpita pela doçura.

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3. Sobre a Liberdade (VICENTE BARRETO - TOM ZÉ)
A liberdade é um mistério,
todo dia se decifra
todo dia se disfarça.
A liberdade é só presente,
não promete pro futuro
não comete ter saudade.
A liberdade é traiçoeira
que nem amor de menina
se amoita em cada moita
se esquiva em cada esquina.
A liberdade é vaidosa,
quer cuidados e desejos
quer escovas e limpeza.
A liberdade é muito prosa,
é azeite pelas juntas
penteada e caprichosa.

5. Classe Operária (TOM ZÉ)
Sobe no palco o cantor engajado Tom Zé,
que vai defender a classe operária,
salvar a classe operária
e cantar o que é bom para a classe operária.
Nenhum operário foi consultado
não há nenhum operário no palco
talvez nem mesmo na platéia,
mas Tom Zé sabe o que é bom para os operários.
Os operários que se calem,
que procurem seu lugar, com sua ignorância,
porque Tom Zé e seus amigos
estão falando do dia que virá
e na felicidade dos operários.
Se continuarem assim,
todos os operários vão ser demitidos,
talvez até presos,
porque ficam atrapalhando
Tom Zé e o seu público, que estão cuidando
do paraíso da classe operária.
Distante e bondoso, Deus cuida de suas ovelhas,
mesmo que elas não entendam seus desígnios.
E assim,, depois de determinar
qual é a política conveniente para a classe operária,
Tom Zé e o seu público se sentem reconfortados e felizes
e com o sentimento de culpa aliviado.
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4. No Jardim da Política (TOM ZÉ)
No jardim da política, meu bem,
vamos passear.
Chega nega morena vem
vamos passear
no jardinzinho bonitinho
cheirosinho formosinho da política
ô meu bem
vamos passear.
Chega neguinha morena vem
vamos passear.
Eu te dou um beijo esquerdista
na ponta do pé
-- você se irrita
e diz que essa servidão capitalista
não lhe conquista.
Eu te peço
a boquinha molhada de saliva,
minha diva,
você diz que essa liberdade
é excessiva.
E diante desta contradição ideológica
te ofereço a rosa comemorativa
desta tua democracia relativa.
E eu pego esse teu rostinho
verde e cor-de-rosa
pego todo o jardim para te dar
e também a rosinha
vermelhinha do PC
e a rosinha
mais vermelhinha do PC do B.
E eu pego todo o jardim para te dar.

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6. Desafio do bóia-fria (folclore) (TOM ZÉ - ARRANJO)
Patrão: Meus senhores, vou lhes apresentar uma gente não sei de que lugar, uma coisa que imita a raça humana: eis aqui o trabalhador da cana.
Pois agora eles só querem falar em direitos e leis a registrar, imagine a confusão que dá!
Eu explico pra eles a tarde inteira esse tal de registro na carteira atrapalha, é burrice, é besteira.
Bóia-Fria:
Mas o traquejo da lei e do direito não degrada quem dele se apetece pois enquanto se nutre de respeito é o trabalhador que se enobrece.
Além disso quem chega-se à virtude e da lei se aproxima e se convém tá mostrando ao patrão solicitude por querer o que dele advém.
Desse modo o registro na carteira será nossa causa verdadeira.
Patrão: Mas que raça de gente muquirana me saiu esse trabalhador da cana! ignora que a lei e a justiça é da autoridade submissa e quando jegue se mete a gato mestre vai um pé pr'oeste e outro pro leste.
E assim no seu tema predileto o diabo já passa por dileto com esse tal de registro na carteira que atrapalha, é burrice, é besteira.
Bóia-Fria: Da justiça e da lei quem se aproxima tá louvando o que vem de lá de cima mas o luxo, o palácio, o desperdício é com Deus que se ajusta cada vício.
Sei que a nossa caneta é o machado mas poetas da popularidade com sonetos e versos caprichados já disseram por nós lá na cidade:
Que lutar por registro na carteira será nossa causa verdadeira.
Patrão: Não me traga cantores de protesto, eta raça de gente que eu detesto, só de ouvir este nome de política eu já fico agastado e com azia, sinto dores, a febre me arrepia tenho a tosse a maleita e a raquítica, pelo campo é o voto, a abertura, já não tem mais pureza a criatura
com esse tal de registro na carteira que atrapalha, é burrice, é besteira.
Bóia Fria: Pois pra mim você tá é misturando ter pureza com ser ignorante tá chamando a burrice de elegante a bobeira mental advogando.
Se eu estudo é lutando na peleja da maneira de a vida melhorar e com isso não vou abandonar a pureza da alma sertaneja.
Desse modo o registro na carteira será nossa causa verdadeira
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7. Marcha Partido (TOM ZÉ)
Com um beijo na vanguarda e uma palmada na retaguarda do bebê bumbum de anjo e a política petife patifo patifa patifa patifafafá
E o PMDB padece patifa patifa fafá no colo do PDS patifa patifa fafafá o PTB percebeu patifa patifa fafafá mas o PDT quer deter se apetece ao PT ter poder pode ser, pode não ser
Segura o pé, neném porque na política do amor só tem sufrágio direto aqui também quem decide a eleição é o voto do analfabeto.

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8. Figura Nacional (TOM ZÉ)
Deram parte ao delegado que eu era filho vadio semana que eu não trabalhava sustentava mulé com cinco fio.
O delegado me intimou pra eu ir na delegacia: fui prestar depoimento daquilo que eu não sabia.
Mas seu doutor eu tenho tanta profissão que já não sei negar inventor, industrial até cirurgião a língua do meu canivete opera apendicite seu doutor, em muita gente que não presta fiz intervenção.
Vou lhe contar no fabrico de bonecos sou industrial mas vosmecê guarde segredo pela caridade pois eu atendo em domicílio na sociedade.
E como inventor eu me orgulho porque já honrei a memória de Santos Dumont.
Inventei um maquinário ainda lá na minha terra que fabricava nota de cinqüenta mil cruzeiros mais bem-feitas que as da Casa da Moeda.
Eu sei que quem rouba um é moleque, aos dez promovido a ladrão, se roubar cem já passou de doutor, e dez mil é figura nacional.
E se roubar oitenta milhões é a diplomacia internacional a boa vizinhança e outras tranças.
É que na profissão de ladrão injustiça e preconceito dá chuva pra inundação pra alguns fama e respeito pra outros a maldição, pois o tamanho do roubo faz a honra do ladrão.
E é por isso que eu só vou para o xadrez, seu delegado se o senhor trouxer primeiro toda classe para o meu lado. Mas neste dia de aflição não vai ter prisão no mundo pra caber a multidão
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9. Dólar (TOM ZÉ)
Porque como um grande chefe de família, como um respeitado, direito e distinto chefe de família ele soube sempre encaminhar seus filhos para a glória.
Glória, glória, glória eterna. Mas aguardando aquele tal de dia do Juízo que tá escrito naquele livrinho preto -- será que aquilo é verdade, será que é mentira?
Aqui na terra, que tá valendo foi ensinando os meninos a juntar muito dólar dólar, dólar, dólar na terra.
Ensinou-lhes bem cedo que a honra todos devem cultivar entretanto ao tomar decisões ela nunca deve atrapalhar.
Mostrou que as boas ações a causa justa e que é nobre convive é com os milhões. E tudo isso ensinou com poucas palavras e muitas ações

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10. Vá Tomar (TOM ZÉ)
Meta sua grandeza no banco da esquina, vá tomar no verbo seu filho da letra meta sua usura na multinacional vá tomar na virgem seu filho da cruz.
Meta sua moral, regras e regulamentos escritórios e gravatas sua sessão solene.
Pegue e junte tudo passe brilhantina enfie, soque, meta no tanque de gasolina.

12. (Ui) Você Inventa (TOM ZÉ - ODAIR CABEÇA DE POETA)
(Falado Você inventa o remédio e eu invento a doença você inventa a corda e eu invento o pescoço.
Você inventa "grite!" eu invento "ai!" você inventa "chore!" eu invento "ui!".
Você inventa o luxo eu invento o lixo você inventa o amor eu invento a solidão.
Você inventa Deus e eu invento a fé você inventa lei e eu invento a obediência.
Você inventa o trabalho e eu invento as mãos você inventa o peso e eu invento as costas.
Você inventa a outra vida e eu invento a resignação você inventa o pecado e eu fico aqui no inferno.
Meu Deus, no inferno Valha-me, Deus.
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11. Minha Carta (TOM ZÉ)
Eu preciso mandar notícias pro coração do meu amor me cunzinhar pro coração do meu amor me refazer me sonhar, me ninar, me comer, Me cunzinhar como um peru bem gordo me cunzinhar como um garrote arrepiado um casal de pombas que saiu da sombra.
Me cunzinhar como um bezerro santo canário preso pra limpar o canto luxa no alpiste mas o trinado é triste.
Eu escrevo minha carta num papel decente quem se sente quem se sente com saudade não economiza martiriza Martiriza o pensamento eu digo no papel que o anel no anel do pensamento andei duzentas léguas minha égua minha égua esquipando o peito me sacode, cada golpe.
Nesse golpe do galope que o envelope engole cada gole cada gole da lembrança vale um tesouro é besouro é besouro que se bate sempre na vidraça quando passa quando passa em pensamento volta na saudade toda tarde.
Eu preciso mandar mandar notícia.
Ai, ai, ai, ui (repete)

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Ficha Técnica
Voz e violão: Tom Zé e Charles Furlan
Abertura - violões: Tom Zé e Gilberto Assis
Restauração Fonográfica: Paulo Tatit e Alê Siqueira (Salamandra Studio)
Projeto Gráfico: Eduardo Campos, Rogério Cipolla Welinton Bastos,
Francisco Guimarães
Fotografia: Luiz Luppi, Kleide Teixeira
Consultoria de Repertório: Neusa S. Martins
Assistência de Produção Gráfica: Luciano Cenci, Maria Solange Silva e a turma do Atitudes Musicais
