A noite em que Recife salvou Tom Zé
ã Hagamenon Brito - Correio da Bahia -
O compositor baiano foi a grande sensação da noite de encerramento do VII Abril Pro Rock
Muitos demoraram acreditar no que os seus ouvidos e olhos (ou)viam, anteontem, por volta das 21h40, no Centro de Convenções de Pernambuco, na terceira e última noite do VII Abril Pro Rock: quatro mil pessoas (a maioria adolescente) gritando em coro: "Tom Zé! Tom Zé! Tom Zé!".
Era a consagração popular de uma nova geração para um compositor sui generis (o único ex-tropicalista que ainda mantém a ousadia criativa) que, desde que foi redescoberto para o mundo nesta década pelo americano David Byrne, tornou-se mais popular lá fora do que no seu país, elogiado em revistas cool como Ray Gun e Spin.
E o cidadão de Irará (BA) rendeu-se, claro, ao momento de ovação mais surpreendente do festival: "Vocês hoje estão me salvando pela terceira vez na vida. Eu fui enterrado em 1940, quando não queriam que eu nascesse. Depois, em 1970, quando o tropicalismo acabou. E, agora, Recife me salva de novo".
A empatia com Tom Zé reiterou a qualidade do público que prestigia o mais importante evento do gênero atualmente no Brasil, além de servir como excelente cartão de boas-vindas para o CD Com defeito de fabricação, pérola lançada em 98 nos EUA e que, apenas agora, através da Trama, sai no Brasil.
Acompanhado por banda, com momentos de popismo explícito, o compositor privilegiou o repertório de Com defeito de fabricação. Destaques para o Defeito 1: o gene ("Faça suas orações / uma vez por dia / depois mande a consciência / junto com os lençóis / pra lavanderia") e o Defeito 3: politicar ("Meta sua usura / na multinacional / vá tomar na virgem / seu filho da cruz"). Nesta última, baixou um Kurt Cobain (Hollywood Rock 93) rápido em Tom Zé e ele provocou FHC e a Rede Globo.
Cascabulho e Mestre Ambrósio – O neoforró do Cascabulho e do Mestre Ambrósio foi o outro pico da maratona (dez bandas) dominical que só terminou às 3h de ontem. Liderada por Silvério Pessoa, o Cascabulho é a banda brasileira que melhor relê as influências de Jackson do Pandeiro: é impossível resistir ao suingue pé-de-serra de Vovó Alaíde e Balanço de Maria (ambas, do discão Fome dá dor de cabeça).
Mestre Ambrósio fez o show de lançamento do segundo álbum (o primeiro, independente, vendeu 20 mil cópias) e a sua estréia na Sony, Fuá na casa de Cabral, gravado desde maio de 98. A mistura acústico + peso elétrico do Mestre Ambrósio atualiza as tradições musicais pernambucanas com muita personalidade, seja em estúdio, seja no palco do Abril Pró Rock.
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