.IMPRENSA CANTADA 2003
(Trama , Novembro 2003) www.tramamusic.com.br

 

 







DEDICATÓRIA

"Àqueles que trabalham com e pelo livro no Brasil, representados aqui por Arthur Nestrovski, dedico este disco."

Tom Zé

 


  RELEASE

  MÚSICAS

 
REGISTROS INÉDITOS

  FAIXAS GRAVADAS AO VIVO

  FAIXAS GRAVADAS EM
  ESTÚDIO

  FICHA TÉCNICA

Tom Zé lança "Imprensa Cantada 2003"

"Imprensa Cantada 2003", o novo CD de Tom Zé, reúne um conjunto de canções em sua maioria direta ou indiretamente relacionadas (ou relacionáveis) com a imprensa, isto é: canções que são comentários, explícitos ou implícitos, sobre fatos (históricos, alguns) cobertos pela mídia. O disco já é aberto por duas faixas que se complementam numa espécie de apreciação poetico-musical sobre a guerra no Iraque. A primeira, "Dona Divergência", de Lupicínio Rodrigues, única peça de autoria alheia do repertório, secamente cantada à capela, vem a ser mais uma visita que Tom Zé, como intérprete e como tradutor da tradição musical brasileira, faz ao repertório desta, ele que já releu, entre outros, Luiz Gonzaga e João do Vale. Tom Zé aproveita versos (como os iniciais: "Oh Deus que tens poderes sobre a Terra/ Deves dar fim a esta guerra") da impressionante canção de teor amoroso, para lhes sobrepor uma possível significação política, sugerida à luz de acontecimentos da atualidade. Segue-se uma composição feita há alguns meses e gravada em seguida pelo autor, de repercussão imediata no meio jornalístico quando disponibilizada em MP3: "Companheiro Bush" ("Se você já sabe quem vendeu/ Aquela bomba pro Iraque/ Desembuche:/ Eu desconfio que foi o Bush"). Eis aqui o que se pode chamar de uma canção de circunstância, como outras já criadas por Tom Zé em outras circunstâncias, e que não puderam sair então (felizmente, hoje Tom Zé as faz e elas saem, e saem logo). Seu alto teor satírico é sublinhado pelo arranjo criado por Max de Castro, de sabor algo apropriadamente tropicalista. O tema da guerra-e-paz é a seguir posto de lado, mas apenas temporariamente, pois será retomado na sétima faixa, "Urgente pela Paz" (produzida por João Marcello Bôscoli), que não é senão aquilo que o título insinua: um manifesto pela paz imediata ("É urgente, é urjá") no mundo. Arranjo, canto e melodia adequada e funcionalmente - considerando a intenção da peça, composta por ocasião das manifestações que precederam a guerra no Iraque - suaves. "Requerimento à Censura", a terceira canção (se é que se pode chamá-la assim; trata-se bem mais, na verdade, de uma não-canção), também se constitui exatamente naquilo que o seu nome indica: nada mais nada menos do que a musicalização de uma solicitação oficial de "Antonio José Martins, brasileiro", o próprio compositor, ao "Ilustríssimo Senhor Diretor/ Da Divisão de Censura de Diversões Públicas/ Do Departamento da Polícia Federal, Brasília" (para citar suas primeira linhas), para que sejam censuradas as suas letras de música. Eis uma vez mais Tom Zé incursionando, como é usual no seu caso, pelo inusual. Um detalhe interessante a se observar, ao final da letra cantofalada: a reiteração de pares de sílabas, para efeito lúdico (um hábito nordestino), da expressão "pede deferimento" (que costuma finalizar tais documentos), acaba fazendo soar, enfatizada, a palavra "fede"... Relevante, aqui, informar que "Requerimento" data do período áureo, digamos assim, da Censura na história do Brasil: 1975. Certo parentesco com ela pode ser observado em "1,2, Identificação", três faixas à frente. Sem ser inteiramente feita a partir de um ready-made (caso de "Requerimento"), ela parte igualmente da listagem de dados a princípio inviáveis para a versificação e a musicalização: os nomes e os números dos documentos de um cidadão (mais uma vez, o próprio Tom Zé, ao que parece), seguidos, porém, da catalogação estatística de uma série de informações peculiares sobre a figura. Bem-humorada, auto-critico-irônica, Tom Zé puro. Outra que também pode ser considerada parente de "Requerimento", mas agora em termos de tema e conteúdo, é "Sem Saia, Sem Cera, Censura", a oitava faixa, que retoma o mote da censura. A música, no entanto, é recente, tendo sido motivada pela recepção moralista que, segundo Tom Zé, parte da classe média deu a seu CD passado, "Jogos de Armar" - mais especificamente às músicas "Chamegá" e "O PIB da PIB (Prostituir)". A letra retrata e define a censura como uma espécie de antimusa em versos marcados pela imprevisibilidade, seja quanto ao sentido, seja quanto às imagens: "A censura, ela gosta da arte/ Mas é a Medusa/ Retocando a musa"; "Ela adora a fragrância da arte/ Mas é o machado/ Entre as flores do prado", cantam as vozes de Tom Zé e Jair Oliveira, que participa do CD também como produtor e arranjador desta faixa e de mais três. "Sem Saia..." abre um bloco de três canções seguidas dedicadas à arte e à cultura e completado por "Vaia de Bêbado Não Vale" e "Língua Brasileira", sendo que estas duas, por sua vez, compõem, pode-se dizer, um bloco próprio, voltadas que são ao Brasil e aos brasileiros, ambas à nossa história e à nossa destinação e realização como povo, a primeira à nossa música (trata-se de uma homenagem à bossa nova), a segunda, obviamente, à nossa língua. "Vaia de Bêbado..." vem a ser mais uma canção de circunstância que obteve ressonância na imprensa escrita, após ser lançada num single intitulado justamente "Imprensa Cantada". E "Língua Brasileira", a culminância poética de toda a obra, um olhar cheio de densidade e profundidade dirigido para o que somos e para o processo que nos levou a nos tornamos o que somos, em versos elaborados com cuidado formal. Tom Zé como um legítimo trovador dos nossos tempos modernos. "Vaia de Bêbado..." (parceria com Vicente Barreto) ganha uma versão instrumental produzida por Alê Siqueira e Kid Vinil (dois dos seis produtores do disco) que destaca um requintado bandolim tocado por Renato Anesi. A expressão-título, a propósito, se refere à forma como parte de uma platéia reagiu a João Gilberto certa vez em São Paulo, provável razão por que a faixa vem logo seguida de um registro atualizador de "São São Paulo". O clássico reaparece numa roupagem criada por Ruriá Duprat que faz jus ao sobrenome do jovem maestro. É um dos momentos mais comoventes do disco. Para isso colaboram as vozes que Tom Zé faz ao fundo, citando versos de "Asa Branca", de Gonzaga, e "No Dia que Vim-me Embora", de Caetano, ambas canções de retirantes cuja alusão vem dar uma nova luz à música sobre a cidade que o artista nordestino escolheu para viver e que, "com todo o defeito", carrega no peito. Ruriá também comparece como o autor do sofisticado arranjo para "Você É o Mel", a recriação do poeta Augusto de Campos para "You're the Top", de Cole Porter, que incluí no meu disco de versões de canções de Porter e Gershwin, do qual o fonograma foi aproveitado. Por fim, não podem ficar sem lembrança três instantes de invenção tipicamente tomzeana constantes no disco: "DesenRock-se", um chamegá, estilo imaginado, fabricado e patenteado pelo compositor; "Interlagos F1" (parceria com Paulo Lepetit, outro dos produtores do CD), uma descrição estilisticamente peculiar de uma corrida, feita para atender a um pedido vindo da imprensa esportiva; e "Bate-Boca" (com Gilberto Assis), uma intrincada criação poético-musical, entre a onomatopéia e a polifonia vocal.


Músicas   

Convite: Ouça agora trechos das canções do disco 

   É necessário o Windows Media Player 
   para ouvir as músicas
1. DONA DIVERGÊNCIA   02:42
2. COMPANHEIRO BUSH (MAX REMIX)  4:07 
3. REQUERIMENTO À CENSURA   3:49 
4. DESENROCK-SE  1:46  
5. INTERLAGOS F1  4:22 
6. 1,2,IDENTIFICAÇÃO  4:00 
7. URGENTE PELA PAZ  2:52
8. SEM SAIA, SEM CÊRA, CENSURA 4:15
9. VAIA DE BÊBADO NÃO VALE 3:33
10. LÍNGUA BRASILEIRA 3:52
11. VAIA DE BÊBADO NÃO VALE 3:33
      Versão Instrumental              
12. SÃO SÃO PAULO  4:49
13. VOCÊ É O MEL 4:32
14. BATE BOCA  7:07  

 

1. DONA DIVERGÊNCIA  
  (Felisberto Martins / Lupicínio Redrigues)
   Ed. lrmãos Vitale
Produzido por Décio Matos Jr. para o filme "Fabricando Tom Zé"
Show "Revista Imprensa pela Paz 2003"

Oh Deus, que tens poderes sobre a Terra
Deves dar fim a esta guerra
E aos desgostos que ela traz.
Deves encher de flores os caminhos,
Mais canto entre os passarinhos,
Na vida maior prazer.
E assim, a humanidade seria mais forte,
Ainda teria outra sorte,
Outra vontade de viver.

Não vás, bom Deus,
Julgar que a guerra de que estou falando
É onde estão se encontrando
Tanques, fuzis e canhões.
Refiro-me à grande luta em que a humanidade
Em busca da felicidade, combate pior que leões.
Onde a Dona Divergência com o seu archote
Espalha os raios da morte,
A destruir os casais.
E eu, combatente atingido
Sou qual um país vencido
Que não se organiza mais.

2. COMPANHEIRO BUSH 
     (Tom Zé) Ed. Irará (Trama)
      Produzido por Max de Castro

Se Você Já Sabe Quem
Vendeu Aquela Bomba Pro Iraque,
Desembuche.
Eu Desconfio Que Foi O Bush.

Foi O Bush,
Foi O Bush.
Foi O Bush.

Onde Haverá Recurso
Para Dar Um Bom Repuxo
No Companheiro Bush.
Quem Arranja Um Alicate
Que Acerte Aquela Fase
Ou Corrija Aquele Fuso,

Talvez Um Parafuso
Que Ta Faltando Nele
Melhore Aquele Abuso.
Um Chip Que Desligue
Aquele Terremoto,
Aquela Coqueluche.

Se Você Já Sabe etc.

3. REQUERIMENTO À CENSURA  
     (Tom Zé) Ed. lrará (Trama)
      Produzido por Jair Oliveira

Ilustríssimo Senhor Diretor
Da Divisão de Censura de Diversões Públicas
Do Departamento de Polícia Federal, Brasilia
Antonio José Martins, brasileiro,
Avenida Brigadeiro Faria Lima, 1857, 1.o andar,
Conjunto 112 e 113 e 114, São Paulo, Capital,
Vem mui respeitosamente solicitar
A Vossa Senhoria
Que se digne mandar
Censurar as letras musicais anexas.

São Paulo, 10 de fevereiro
De mil novecentos e 2010.
Nestes termos, nestes termos, nestes termos
Pede, pede defé defé
De fede fede fede
De-fe-ri-men-to.

4. DESENROCK-SE 
     (Tom Zé) Ed. lrará (Trama)
     Produzido per Paulo Lepetit

Eu já sei que essa panorâmica
É a 2ª Lei da Termodinâmica

Para desintoxicar de tanto rock nem
Nem um choque, nem um choque
Para desintoxicar de tanto rock só
Só um xote chamegá

Eu digo desenrock-se
Meu nego desenrock-se
Desintoxique-se desse apocalipse
Para evitar complicação com a intoxicação
E o buraco das meninas não aparecer com cera
Paraguai e Argentina querem fechar a fronteira.

 

5. INTERLAGOS F1       
     (Tom Zé / Paulo Lepetit) 
     Ed. Irará (Trama) / Trama
     Produzido por Paulo Lepetit

Interlagos Isso na língua da Fórmula 1 quer dizer
Nem um segundo de descontração
Interlagos Isso na língua da Fórmula 1 quer dizer
Toda concentração
Ultraconcentração
A largada:
Apaga 1 - apaga - apaga 2 - apaga 3 - apaga - apaga 4
Apaga 4 - apaga 5 e largou!
Tchic tchic oêum Tchic tchic (etc.)
Cada segundo tem décimos, centésimos
tem pêlos e cabelos de milésimos

Logo na curva do S
O pneu canta e se aquece
E como esse S é do Senna
A pista fica pequena

Depois da Curva do Sol
A reta oposta é segura
Mas a descida do Lago
Embica na Ferradura

Tchie tchic ... (etc.)
E o inimigo colado
Fungando pra todo lado
Quem freia cedo se arrisca
Quem freia tarde acaba a pista
(Lá vai o moleque pra grama outra vez)

Agora vem o miolo
Essa complicada seqüência
Precisa tino e ciência
Segura o carro, seu tolo
(Tolo, aí não, que aí só tem louco)

0 Pinheirinho não é canja
Não é curva pra novato
Pois nem acaba o Laranja
Vem logo o Bico do Pato

Tchie tchic ... (etc.)

E o inimigo colado... (etc.)
(Faz logo uma pista nova pra ele aí)

Fico enjoado e me embrulho
Só de pensar no mergulho
Agora é a Junção

 

6. IDENTIFICAÇÃO
     (Tom Zé) Ed. Irara (Trama)
    Produzido por Tom Zé
    Gravado ao Vivo no Campus da USP - 2003

Identificação
Identificação
RG 1231232 São Paulo
CIC 743748747-00
ISS 1231558-06
INPS 452749-748
Ordem dos Músicos do Brasil 0840 Bahia
CGC 958.74210000-001
Títulos protestados, 7
Impulsos de medo, 1.106
Sintomas neuróticos, 36
Horas semanais de catequização pela TV, 16
Ôô, 16, êê, 16, ôô, 16, êê, 16
Impulsos de amor, de amor, 3
Propaganda consumida, 1.106
Alegrias, alegriazinhas espontâneas, 2
Idas ao banheiro para atividades diversas, 36
Ôô, 36, êê, 36, êê, 36, êê, 36
Tempo de vida previsto para o cidadão
Tempo de vida previsto para o cidadão
600 mil horas de vida, de vida, de vida
Abatimento pelo consumo de alimentos envenenados
Refrigerantes, remédios e enlatados, 1.125 horas
Abatimento pelo desgosto que se padece
Naquela filado INPS, 1.125 horas
Abatimento por ficar só no desejo
Daquela mulher bonita que aparece na propaganda
de cigarro, 1.125 horas
Pelo medo de doenças incuráveis
Como cólera, câncer e meningite, ê ê ê
1.125 horas
Abate aqui
Abate ali
Abate isto
Abate aquilo
E jaz pela cidade
Um zumbi sem sepultura
Classificado, numerado
É o cidadão bem-comportado

 

7. URGENTE PELA PAZ
     (Tom Zé) Ed. lrará (Trama)
    Produzido por João Marcello

Povo Perigo Padece
Povoa A Praça Depressa
De Pandeiros E Preces,

Urgente Pela Paz.

De Pé, O País Repudia
Vadia Guerra Que Adia
O Dia Azul Que Seria,
Urgente Pela Paz.

Os Poderosos Querem Guerrear
Mas Pra Lá Do Paquistão, Do Quixadã,
E Bem Alem Das Águas Do Jordão,

Pela Paz É Urgente, É Urjá,
Pela Paz É Urgente, É Urjá.

Repetição, Petição
Nos Quatro Cantos, Japão,
Daqui Até O Sudão,
Urgente Pela Paz.

Até No Baião Bato Pé,
Se Quer Pagode Ou Axé,
Pajé, No Taco Boto Fe,
Urgente Pela Paz.

Os Poderosos Querem Guerrear,
Mas Pra Lá Do Paquistão, Do Quixada,
E Bem Além Das Águas Do Jordao,

Pela Paz É Urgente, É Urjá,
Pela Paz É Urgente, É Urjá.

 
8. SEM SAIA, SEM CERA, CENSURA
     (Tom Zé) Ed. lrara (Trama)
      Participação Especial: Jair Oliveira

É a rima, a rima ditada por lei, por decreto
É a múmia que mama no feto
É a luz que se filtra nas grutas
O insosso temperando as frutas

O medo, o medo tem que censurar para criar
A parceria da pedra com a vidraça
Do elefante com a graça, com a taça
A parceria da bala de canhão, canhão, canhão
Com a bolinha de sabão.

A censura, ela gosta da arte
Mas é a Medusa retocando a musa
A censura, ela ama a arte
Mas é como a fera penteando a bela
A censura, ela morre de amor pela arte
Mas é a enxada
Acarinhando a fada
A censura, ela adora a fragrância da arte
Mas é o machado
Entre as flores do prado

 

9.
VAIA DE BÊBADO NÃO VALE

     (Tom Zé / Vicente Barreto) Letra: Tom Zé
      Ed. lrará (Trama)
     Produzido por Alê Siqueira

PRIMEIRA EDIÇÃO

No dia em que a bossa-nova
inventou o Brasil,
No dia em que a bossa-nova pariu
o Brasil
Teve que fazer direito
Teve que fazer Brasil Bis

Criando a bossa-nova em 58
O Brasil foi protagonista
De coisa que jamais aconteceu
Pra toda a humanidade
Seja na moderna História
Seja na História da Antigüidade.
Por isso, meu nego:
Vaia de bebo não vale.
De bebo vaia não vale Bis

(refrão)

SEGUNDA EDIÇÃO

No dia em que a bossa-nova
inventou o Brasil ................
.......................................................................
Quando aquele ano começou, nas
Águas de Março de 58,
O Brasil só exportava matéria prima
Essa tisana
Isto é o mais baixo grau da capacidade humana
E o mundo dizia:
Que povinho retardado.
Que povo mais atrasado Tris

TERCEIRA EDIÇÃO

No dia em que a bossa-nova
inventou o Brasil ..............................
.........................................
A surpresa foi que no fim daquele
mesmo ano
Para toda a parte
O Brasil d'O Pato
Com a bossa-nova, exportava arte,
O grau mais alto da capacidade
humana
E a Europa, assombrada:
Que povinho audacioso
Que povo civilizado Tris

Pato ziguepato ziguepato pato
Pato ziguepato ziguepato pato

Tratou com descaso nosso amado pato
Viva a vaia, seu Augusto,
Viva a vaia, seu João,
Viva a vaia, viva a vaia.
Viva a vaia com Diós, amor,
Porque yo soy argentino
Gentino, gentino, gentino.


10.
LÍNGUA BRASILEIRA

     (Tom Zé) Ed. lrara (Trama)
     Produzido por Jair Oliveira

Quando me sorris,
Visigoda e celta,
Dama culta e bela,
Língua de Aviz...

Fado de punhais,
Inês e desventuras,
Lá onde costuras,
Multidão de ais.

Mel e amargura,
Fatias de medo,
Vinho muito azedo,
Tudo com fartura.

Cravos da paixão,
Com dores me serves,
Com riso me pedes
Vida e coração,
Vida e coração.

Babel das línguas em pleno cio,
Seduz a África, cede ao gentio,
Substantivos, verbos, alfaias de ouro,
Os seus olhares conquistam do mouro.

Mares-algarismos,
Onde um seu piloto
Rouba do ignoto
Almas e abismos.

Verbo das correntes
Com seu candeeiro
Todo marinheiro
Caça continentes.

E o gajeiro real,
Ao cantar matinas,
Acha três meninas
Sob um laranjal.

Última das filhas,
Ventre onde os mapas
Bordam suas cartas
Linhas Tordesilhas,
Linhas Tordesilhas.

Em nossas terras continentais
A cartomante abre o baralho,
Abismada vê, entre o sim e o não,
Nosso destino ou um samba-canção.


11. VAIA DE BÊBADO NÃO VALE
     (Tom Zé / Vicente Barreto) Ed. Irará (Trama)
     Participação especial de Renato Anesi
     Produzido por Alê Siqueira

    (Versão Instrumental) 


12.
SÃO SÃO PAULO
     (Tom Zé) Ed. Arlequim
    Produzido por Zé Miguel Wisnik

São São Paulo, quanta dor
São Sâo Paulo, meu amor

São vinte milhões de habitantes
de todo canto e nação
que se agridem cortesmente
correndo a todo vapor
e amando com todo ódio
se odeiam com todo amor
são vinte milhões de habitantes aglomerada solidão
por mil chaminés e carros
gaseados a prestação.

Porém com todo defeito
te carrego no meu peito.

São São Paulo, quanta dor
São São Paulo, meu amor

Salvai-nos, por caridade!
Pecadoras invadiram
todo o centro da cidade
armadas de ruge e batom
dando vivas ao bom humor
num atentado contra pudor.

A família protegida
o palavrão reprimido
um pregador que condena
[um festival por quinzena]

Porém com todo defeito
te carrego no meu peito.

São São Paulo, quanta dor
São São Paulo, meu amor

Santo Antonio foi demitido
e os ministros de Cupido
armados da eletrônica
casam pela tevê
crescem flores de concreto
céu aberto ninguém vê.

Em Brasília é veraneio
no Rio é banho de mar
o país todo de férias
e aqui é só trabalhar.

Porém com todo defeito
te carrego no meu peito.

 

CITAÇÃO :  ASA BRANCA
  (Luiz Gonzaga / Humbeto Teixeira) 
   Ed. Fermata

13. VOCÊ É 0 MEL
 
(Cole Porter ) Versão: Augusto de Campos 
  Ed. Waner/Chappell
  Produzido por Carlos Rennó
  Fonoqrama gentilmente cedido por 
  Gegê Produções Artisticas

Meu dom poético é tão patético,
Que eu não sei mais falar
E já prefiro até me calar
Para não me abalar.
Não acho bom
Mostrar o meu som,
Vou ficar só no ABC.
Mas se a cantiga
É um pouco antiga,
Talvez lhe diga Como é você.

Você é
O Museu do Prado,
Você é
Meu supermercado;
É a melodia de uma sinfonia de Strauss,
É Copacabana,
Ode shakespeariana,
É Mickey Mouse;
Paraíso
Ou Torre de Pisa,
O sorriso Da Mona Lisa;
Sou um boy de banco, um cheque em branco, um réu,
Mas, meu bem, se eu sou o fel,
Você é o mel.

Você é
Men Mahatma Gandhi,
Você é
Um Napoleon Brandy;
Luz do sol que vai quando a noite cai na Espanha,
É uma boa ducha,

O cachê da Xuxa,

O melhor champanha;
É. um toque De Botticelli,
Hitchcock
Com Grace Kelly;
Sou só um galão do multifilão da Shell,
Mas, meu bem, se eu sou o fel,
Você é o mel.

Você é
O dry do Martini,
Você é Filme de Fellini;
É o novo som que nasceu de Tom jobim,
Gal, Caetano e Gil,
Oswald, "Pau Brasil",
É "Serafim";
Maradona
Driblando a zaga,
A sanfona
Do Luiz Gonzaga;
Sou só um Romeu que esqueceu o seu papel,
Mas, meu bem, se eu sou o fel,
Você é o mel.

Você é Minha Mata Hari,
Você é
LIFE de Pignatari;
É Noel que bisa em Vila Isabel,
E uma obra-prima,
É "Macunaíma",
É "Demoiselle";
Ezra Pound,
Gamelão de Bali,
É um round
Do Mohammed Ali;
Sou só uma bagana do havana do Fidel,
Mas, meu bem, se eu sou o fel,
Você é o mel.



14. BATE BOCA  

  (Tom Zé / Gilberto Assis) Letra: Tom Zé
  Ed. Irará (Trama)
  Produzido por Paule Lepetit
  FONOGRAMA DE PROPRIEDADE EXCLUSIVA
  DE CORPO LTDA.


(Soprano)
qui qui qui qui qui qui

(Baixos)
co co co co có có

(Coro dos Filhos de Bechett)
Di godi godi
godô godi
godi
digodigo
di godô godi
godi

(Coro das Filhos Dadaístas)
Na pá de cá
na pá de lá de cá
na pá de cá
na pá ele lá de ca

(Coro do Samba-de-Roda)
Zé do pé duro
Zé-duro
pereba tu Zébu
Zé do pé duro
Zé-duro
pereba tu Zébu

(Contracoro do Samba de Sarapatel)
Urubu-ti pereba-tu
tubacuru pega-urubu

(Parábase caipira)
Vá ti ti catá vá ti
vá ti ti catá vá ti
vá ti catã vá ti catá
vá ti catá catá
catá vá ti vá ti

catá ti vá
catá ti vá
vá ti catá vá ti catá


         

REGISTROS INÉDITOS

 

Parte dessas canções permaneceu inédita porque compreende composições pa. voz e violão feitas durante a fase de ostracismo de minha carreira, quando eu vivia de shows para a classe universitária. "Tom Zé, já procurei em tudo quanto é disco, onde você gravou  Identificação?" Respondi a Rolando: "Boldrin, essa canção não está gravada."

"Você é louco, Tom Zé? Não gravar uma música dessas?" Acontece que essas canções, feitas para shows em que eu atuava sozinho, eram tão específicas para voz e violão‑solo que se comportavam com rebeldia quando tentava colocá‑las na moldura de um arranjo.

Jair Oliveira, com o bico de pena da sutileza, resolveu o problema de várias delas, com uma moldura bem essencial.

É o caso de Identificação, na qual interveio aperfeiçoando o que fora gravado ao vivo, e de Requerimento à Censuras, Língua Brasileira; DesenRock‑se, Urgente, pela Paz e Sem Saia, Sem Cera, Censura ‑ às quais ele deu, como roupa de gala, o essencial para cobrir as partes pudendas. Max de Castro fez um arranjo satírico e grandioso para Companheiro Bush. Paulo Lepetit deu forma final a Interlagos F1 Ruriá Duprat arranjou São São Paulo e Você É Mel (You're the top). Vaia de Bêbado (faixas 8 e 11), também é inédita em CD, saiu apenas num single, produzido por Alê Siqueira.

 

FAIXAS GRAVADAS AO VIVO:

Faixa 1: Dona Divergência Cantada à capela na abertura do show pela paz, organizado pela Revista Imprensa no Sesc Vila Mariana, em abril de 2003 e gravada por Décio Matos Júnior para integrar o filme cinematográfico "Fabricando Tom Zé".
Faixa 6: 1,2, Identificação Apresentada no campus da USP, São Paulo, no show "Identidade da Classe Estudantil foi composta quando a definitiva entrada dos computadores em todos os terminais da vida pública e particular intensificou, na conversa diária, o refrão de que os homens haviam sido transformados em números.

 

FAIXAS GRAVADAS EM ESTÚDIO

 Faixa
2: Companheiro Bush, composta antes da invasão do Iraque, para um ato público pela paz organizado em São Paulo, em abril de 2003.

Faixa 3: Requerimento à Censura, composta quando a censura, ca. 1975, instituiu o chamado "crime de falsidade ideológica", se o cantor modificasse na gravação qualquer vírgula do texto que enviara para censurar. 
Faixa 4: DesenRock-se, quando fui convidado para me apresentar no Rock in Rio.
Faixa 5: Interlagos Fl, sugerida pelo pessoal da imprensa esportiva no Grande Prêmio de Fórmula 1 de 2003. 
Faixa
7: Urgente, pela Paz, ver canção 2 idem, ibidem. 
Faixa 8: Sem Saia, Sem Cera, Censura:  Depois do ",.. falsidade ideológica", as gravadoras conseguiram o que nós, artistas, chamávamos de "tardes de cafezinho na Censura" (Deus seja louvado). Éramos chamados para modificar parte das letras das canções (louvado seja Deus). Em casos que tais, como na canção Tô, por exemplo, o verso "Comendo gente fina para vomitar" foi transformado no insosso "Eu tô aqui comendo para vomitar", (que não louva nem o autor). Infelizmente parece que esse mundo de porões não é privilégio de tempos ditatoriais, Porque meu cd anterior, jogos de armar, foi veladamente censurado pela hipocrisia da classe média. 
Faixa
9: Vaia de Bêbado não Vale: João Gilberto usou essa expressão quando foi tratado da forma aludida no título na inauguração do Credicard Hall, em São Paulo. Faixa 10: Língua Brasileira, que tem como ponto de partida a discussão sobre a unificação da grafia para os países de fala portuguesa. 
Faixa 11: A "Vaia..."        em versão instrumental com o bandolim de Renato Anesi. Faixa 12: São São Paulo: regravada, a pedido do pessoal da novela Vila Madalena. Faixa 13: Você É Mel, gravada para um disco produzido por Carlos Rennó, como parte de uma compilação do selo Geléia Geral (Warner), fundado por Gilberto Gil. Faixa 14: Bate Boca, do balé Santagustin, parceria com Gilberto Assis, peça que encerra o espetáculo. Santagustin é aquela trilha que começa com os toques do telefone celular e desenvolve sobre estilos tradicionais da mpb algumas tensões harmônicas mais radicais, que ficam no limiar da politonalidade, praticando em relação a esta uma linha assintótica. Em Bate-boca, por exemplo, a harmonia da base permanece indiferente enquanto as superposições contrapontísticas requerem outras tríades da escala.

FICHA TÉCNICA

Produtores Executivos: João Marcello Bôscoli,
André Szajman e Cláudio Szajman
Direção geral: Jair Oliveira
A&B: JMB
Seleção de Repertório: Tom Zé
Coordenacão da Produção: Neusa, S. Martins e Riva Gonçalves
Assistente Artístico: Thácio Verçosa
Direção de Marketing: Vagner Garcia
Gerente de Marketing: Andrea Oliveira
Masterizado por Carlos Freitas no Estúdio Classic Master
Capa: Arte: Elisa Cardoso
Colaboração: Rafael Ramos Coelho
Núcleo de Moda e Imagem da Trama
Direção: Emanuela Carvalho
Produção de Moda: Steffany Heine
Coordenação de Imagem: Joana Figueiredo
Produção de Imagem: João Sartorelli e Sabrina Roistacher

Contatos para show: 55 (11) 3673 54 89


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