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Brás (São Paulo - Capital), entre Mooca,
Belenzinho, Pari, no começo da
Av. Celso Garcia, do seu lado direito, foi inicialmente região onde
se
concentrou a colonia italiana. Hoje uma população preponderantemente
nordestina. Seu aspecto é de cidade do interior da Bahia ou Pernambuco
em dia de feira. Sotaque nordestino, jabá, maniçoba, sarapatel, carne de
sol, farinha de copioba, puxa, quebra-queixo, caçuas, girimuns, fê,
guê,
lê, mê, nê.
| Vicente
Barreto |
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Músicas

FACE A
1.
MENINA JESUS
(Tom
Zé)
comentário:
O nordestino que vem tentar o Sul só pode visitar os seus quando
tiver comprado três importantes
símbolos da civilização: um rádio de pilha, um relógio de pulso e
um par de óculos escuros.
Valei-me, minha menina Jesus
minha menina Jesus
minha menina Jesus, valei-me.
Só volto lá a passeio
no gozo do meu recreio,
só volto lá quando puder
comprar uns óculos escuros.
Com um relógio de pulso
que marque hora e segundo,
um rádio de pilha novo
cantando coisas do mundo --
pra tocar.
Lá no jardim da cidade,
zombando dos acanhados.
dando inveja nos barbados
e suspiros nas mocinhas...
Porque pra plantar feijão
eu não volto mais pra lá
eu quero é ser Cinderela,
cantar na televisão...
Botar filho no colégio,
dar picolé na merenda.
viver bem civilizado,
pagar imposto de renda.
Ser eleitor registrado,
ter geladeira e tv,
carteira do ministério,
ter cic, ter rg.
Bença, mãe.
Deus te faça feliz
minha menina Jesus
e te leve pra casa em paz.
Eu fico aqui carregando
o peso da minha cruz
no meio dos automóveis,
mas
Vai, viaja, foge daqui
que a felicidade vai
atacar pela televisão
E vai felicitar, felicitar
felicitar, felicitar
felicitar até ninguém mais
respirar.
Acode, minha menina Jesus
minha menina Jesus
minha menina Jesus, acode. |
2.
MORENA
(Adaptação:
Tom
Zé)
Morena, minha morena
tira a roupa da janela
vendo a roupa sem a dona
eu penso na dona sem ela.
Meu quarto tem sete andares
reinado da minha vista
eu tenho céu e mar
mas nada disto me conquista.
Meus olhos desocupados
só querem viver seguindo
a tua pista.
Morena, minha morena ... ... ...
Eu ando desarrumado
no trabalho e no amor
até deixei de lado
o meu futuro de doutor
com o dinheiro da escola
comprei uma lente de alcance
e foi um horror...

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3.
CORREIO DA ESTAÇÃO DO BRÁS
(Tom Zé)
(Revisada como "Feira de
Santana")
Eu viajo segunda-feira
Feira de Santana
quem quiser mandar recado
remeter pacote
uma carta cativante
a rua numerada
o nome maiusculoso
pra evitar engano
ou então que o destino
se destrave longe.
Meticuloso, meu prazer
não tem medida,
chegue aqui na quinta-feira
antes da partida.
Me dê seu nome pra no
caso de o destinatário
ter morrido ou se mudado
eu não ficar avexado
e possa trazer de volta
o que lá fica sem dono.
nem chegando nem voltando
ficando sem ter pousada
como uma alma penada.
De forma que não achando
o seu prezado parente
eu volto em cima do rastro
na semana reticente
devolvo seu envelope
intacto, certo e fechado.
odeio disse-me-disse
condeno a bisbilhotice.
Se se der o sucedido
me aguarde aqui no piso
pois voltando com a resposta,
notícia, carta ou pacote
-- ou até lhe devolvendo
o desencontro choroso
da missão desincumprida
estarei aqui na certa
sete domingos seguidos
a partir do mês em frente.
Palavra de homem racha
mas não volta diferente.

5. PECADO
ORIGINAL
(Tom Zé)
Aquele que nasce pobre
sem nome e sem cabedal
não pode trazer o peso
de um pecado original.
De modo que, de acordo
com o meu requerimento,
perdoado nasce o pobre
a partir deste momento.
O rico não faz questão
de um pecado tão pequeno
ele tem muitas maneiras
de tirar compensação.
Mas não, não pense meu mestre
que eu seja de pouco siso
que aceitando o meu negócio
terás grande prejuízo.
Pois havendo pouco rico
e de pobre um enormanço
imaginei que querias
equilibrar teu balanço.
Nascerão com cada rico
três pecados desses tais
que serão como trigêmeos
muito mais originais.
Sendo um por sua conta
os outros dois se remonta
a uma suave taxa
com que o rico colabora
para o vosso livro-caixa.
E assim a humanidade
com justiça vai viver
e vossa contabilidade
batendo o deve e o haver.
Apregue-se em todo berço
e se reze em todo terço.
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4.
CARTA
(Tom
Zé)
Eu preciso mandar notícia
pro coração de meu amor me cozinhar
pro coração de meu amor me refazer
me sonhar
me ninar
me comer
me cozinhar como um peru bem gordo
me cozinhar como um anum-tesoura
um bezerro santo
uma nota triste.
Me cozinhar como um canário morto
me cozinhar como um garrote arrepiado
um pato den´d´água
um saqué polaca.
Eu escrevo minha carta num papel decente
quem se sente
quem se sente com saudade não economiza
nem à guisa
nem dor nem sentimento que dirá papel
o anel
o anel do pensamento vale um tesouro
é besouro
é besouro renitente cuja serventia
já batia
já batia na gaiola e no envelope
e no golpe
e no golpe da distância andei 200 léguas
minha égua
minha égua esquipava, o peito me doía
quando ia
quando ia na lembrança vinha na saudade.

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| FACE
B |
| 1.
LAVAGEM DA IGREJA DE IRARÁ
(Tom
Zé)
Zé, Zé, Zé Popô
foguete do ar me anunciou
Irará é meu namora
e a lavagem é meu amor
Na Quixabeira eu ensaio
na Rua de Baixo eu caio
na Rua Nova eu me espalho
na Mangabeira eu me atrapalho.
Pulo pra Rua de Cima
valei-me Nossa Senhora
arrepare o remelexo
que entrou na roda agora.
Arriba a saia, peixão
todo mundo arribou, você não.
Melânia, porta-bandeira
com mais de cem companheiras
lá vem puxando o cordão
com o estandarte na mão
em cada bloco de cinco
das quatro moças bonitas
tem três no meu coração
com duas já namorei
por uma eu quase chorei.
Na Lavagem minha alma
se lava, chora e se salva
segunda, lá no Cruzeiro
eu me enxugo no sol quente.
No céu, na porta de espera
sinhá Inácia foi louvada
vendo os pés de Zé-Tapera
São Pedro cai na risada.
Pé dentro, pé fora
quem tiver pé pequeno
vai embora.
Quem chegou no céu com atraso
foi Pedro Pinho do Brejão
que se demorou comprando
quatro peças de chitão.
Mas logo em sua chegada
duzentas saias rodadas
ele deu ao povaréu
e organizou todo mês
lavagem da porta do céu.
Por favor me vista
não me deixe à toa
lá naquela loja
tem fazenda boa
tem fazenda boa
pra sinhá-patroa.
Tem fazenda fina
pra moça grã-fina,
tem daquela chita
pra moça bonita. |
2.
PECADO, RIFA E REVISTA
(Tom
Zé)
Pecado, rifa e revista
o pobre paga é à vista.
A felicidade, o conforto,
a alegria e a sorte,
vendeu fiado pra Deus
vai receber depois da morte.
Quando o pobre está quieto
está fazendo pirraça
se está fazendo festa
é o efeito da cachaça.
Se nasce nego do cabelo duro
foi a mãe saltando o muro;
se nasce branco do cabelo liso
ela não teve juízo.
Pecado, rifa e revista
o pobre paga a vista.

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3. A VOLTA DA XANDUZINHA
(Tom Zé)
Sofrimento não me assusta
Mariá
é meu vizinho de boas tardes
Mariá
conhecer a ingratidão
isso não
isso não
isso não
quando ela tinha nada
Mariá
eu abri a casa todo
Mariá
Quando precisei dela
Mariô
Mariô
Mariô
Foi, quem sabe, a vaidade
ou os oito boi zebu
ou a casa com varanda
dando pro norte e pro sul
fiz a casinha dela
no manacá
o sapatinho dela
no manacá
e a roupinha dela
no manacá
Cadê agora?
mana, maninha, como é triste recordar
A beleza do seu riso
é demais pra se lembrar
o vestido dos seus olhos
se vestiu pra descansar.

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4. AMOR DE ESTRADA
(Tom Zé - Washington Oliveto)
Vou dirigindo solitário pela estrada
mas te levo na lembrança meu amor
o caminhão amigo chora na subida
fiel a minha dor
coro - Voy dirigiendo solitario pur la ruta
pero llevando mio recuerdo a mi amor
mi camion amigo llora en la subida
fiel a mi dolor
solo - Encontrar-te foi bom
o teu corpo é tão perfeito
que para descrevê-lo
um poema não daria
coro - Então é uma carroceria
solo - Com outras não te trairei
e na estrada não darei
carona pra mulher vadia
coro -Isto até ao meio-dia
solo - Seu guarda me desculpe
ultrapassei oitenta beijos
se multar os lábios dela
vai multar os meus desejos
coro - Ela te quebrou dois eixos
solo - Vou pra perto de ti
se de noite estou cansado
clareando minha estrada
teu olhar iluminado
coro - É um farol desregulado
solo - Vou dirigindo...
coro - Voy dirigiendo...
solo - Vou caminhando
meu caminho,
meu longo caminho:
meu caminhão.
coro - Voy caminando,
mi camino
mi gran camino,
mi camión...

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| Fim
do LP |
5. LÁ VEM CUÍCA
(Vicente
Barreto e Tom Zé)
O samba caiu na moda
na esquina e na escola,
tamborim ficou de fora
pandeiro pedindo esmola.
E lá vem cuíca,
lá vem cuíca...
O piano da criada
já foi no psiquiatra
o reco-reco que padece
encostou no INPS.
E lá vem cuíca
lá vem cuíca;
As violas reunidas
contrataram advogado
e levaram no ministério
um grosso abaixo-assinado.
Uma reza milagrosa,
eu já fiz até promessa
pedindo a São Noel Rosa
pra socorrer o samba depressa.
E lá vem cuíca
lá vem cuíca
Pode ser um samba triste
partido alto ou maxixe
pode ser um samba à toa
a malvada não perdoa.
E lá vem cuíca
lá vem cuíca. |
6.
NA PARADA DE SUCESSO
(Tom
Zé e Vicente Barreto)
Em terceiro lugar vem o nanã de naná
em segundo lugar vem o lerê-le-iê
mas em primeiro lugar, malandro
vem o la-ra-la-iá.
Com o nanã de naná
quando a noite cair
eu apanho a coberta
e na hora certa
o meu bem vai dormir.
Mas o le-re-lei-ê
é pra gente mais fina
coisa quase grã-fina,
assanha na festa
e não vai na seresta.
Mas em primeiro lugar
vem o Messias desta era
que é meu la-ra-la-iá.

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Ficha
Técnica
Produtor fonográfico - Discos Continental
Direção artística - Cesare Benvenuti
Coordenação artística - Cesare Benvenuti
Arranjos e regências - Otávio Basso
Técnico de gravação - Waldir Lombardo Pinheiro
Assistente de gravação - Wanderley Aparecido de Paula
Loureiro
Mixagem - Cesare Benvenuti
Adm. de Repertório - Odair Corona
Arregimentação - Rosário Domenico Giusepe de Caria
Lay-Out - Paulo Fasterra - D.P.Z. Propaganda
Arte Final - Oscar Paolillo
Estúdio - Templo/São Paulo
Fotos - Moacyr Lugato e Micheloni
Participação dos músicos:
Pedro Ivo Lunardi - Baixo - Todas as faixas
Armando Ferrante Jr. - Teclados
1/A - 1/B
2/A - 2/B
4/A - 3/B
5/A - 4/B
5/B
6/B
Vicente Barreto
1/A - violão / 1/B violão
2/A - violão / 2/B violão
4/A - violão / 3/B violão
5/A - violão e coro
4/B violão
5/B violão e voz/solo
6/B violão
Sérgio de Souza Leite
1/A - viola / 2/B - cavaquinho
2/A - viola / 3/B - viola
5/A - viola / 4/B - guitarra
5/B - violão de 7 cordas
6/B - cavaquinho
Mauro Herrera - Percussão -
Todas as Faixas
Oswaldo José Sbarro - 5/B - cuíca
Luiz Guilherme Rabello - Todas as Faixas - Bateria
A. C. Carvalho - 6/B - Tamborin
Coral:
Amor de Estrada: 4/B
Diogenes Paulo Budney
Olavo Sérgio Budney
Sérgio Augusto Sarapo
Thomaz Roth
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